quinta-feira, 27 de agosto de 2026

A ESCRITA ME ESPEROU




Autoria da letra: Helena Bernardes 

Uma canção sobre memórias guardadas em antigos cadernos e histórias que atravessam o tempo

Enquanto eu vivia outras histórias, as palavras continuavam guardando meu lugar.

Há momentos em que pensamos que nos afastamos da escrita.

Hoje percebo que comigo aconteceu outra coisa.

Eu estava vivendo.

Fui cuidar da vida, ser avó, contar histórias, criar personagens, guardar lembranças e seguir os caminhos que apareceram. Os cadernos ficaram ali, alguns fechados durante muitos anos.

E agora, ao reencontrar antigos manuscritos, cartas, poemas e anotações, tive uma sensação curiosa: a escrita não tinha ido embora.

Ela havia me esperado.

Talvez por isso tenha nascido esta canção.

“A Escrita Me Esperou” fala desse reencontro, não apenas com os cadernos, mas comigo mesma e com as muitas versões de mim que deixaram palavras pelo caminho.

Um dos versos resume exatamente o que senti:

“Enquanto pensei que estava longe dela,

era a vida escrevendo em mim.”


A tecnologia entrou nessa história agora, ajudando a transformar palavras em música. Mas a experiência que deu origem a elas pertence à vida.

E há algo bonito nisso.

Podemos fechar um caderno.

Podemos passar anos sem voltar a determinada página.

Podemos até acreditar que aquela parte de nós ficou para trás.

Mas algumas palavras sabem esperar.

A minha escrita esperou.

E eu voltei.

✍️ Helena Bernardes

Créditos da música — “A Escrita Me Esperou”

Letra: Helena Bernardes, com apoio de Bel (ChatGPT/OpenAI)

Música e interpretação geradas com inteligência artificial: Donna AI Song & Music Maker

Projeto e direção criativa: Helena Bernardes

© 2026 Helena Bernardes

Nota: a letra foi criada para este projeto autoral. A produção musical e a voz foram geradas por inteligência artificial por meio da plataforma Donna AI.

Deixe nos comentários 

E você? Existe alguma coisa que deixou de fazer durante anos e que, quando reencontrou, parecia ainda estar esperando por você?



TIA ONÇA E A CONVERSA DE PESCADOR

 


Naquela noite, a lua estava tão cheia que parecia ter descido do céu só para se olhar nas águas do rio.

Eu estava quieta na beira, vendo o reflexo dela balançar com a correnteza e conversando comigo mesma, costume antigo de quem anda muito pelo mato e aprendeu que silêncio também responde.

Foi quando apareceu um pescador.

Vinha devagar, carregando suas coisas e aquela tranquilidade de quem não precisa chegar depressa a lugar nenhum.

Parou perto de mim, olhou para o céu, olhou para o rio e perguntou:

— A senhora sabe ler sinal no céu?

Olhei para cima.

Estrelas não faltavam. Lua também não. Mas sinal, desses que pescador enxerga, eu não sabia ler nenhum.

— Não. Sei contar histórias para as estrelas. E até dizer a elas quem as criou.

Ele me olhou com aquela cara desconfiada de quem acabara de encontrar alguém capaz de contar uma história maior que a dele.

Ficamos em silêncio por alguns instantes.

Então ele começou.

Contou de um peixe enorme que quase tinha virado sua canoa.

Depois contou de outro, ainda maior, que escapara quando já estava praticamente dentro do barco.

O terceiro, pelo tamanho que ele descreveu, provavelmente não caberia nem no rio.

Foi aí que entendi uma coisa importante sobre pescadores:

o peixe que escapa continua crescendo pelo resto da vida.

Quanto mais os anos passam, maior ele fica.

Talvez seja por isso que pescador velho tenha tantas histórias e tão poucos peixes para apresentar como testemunha.

Eu não discuti.

Quem conta histórias para as estrelas não tem moral nenhuma para exigir provas de quem conversa com peixes.

Despedi-me dele e continuei meu caminho.

A lua permanecia no rio.

As estrelas continuavam no céu.

E eu levei comigo uma aprendizagem daquela noite:

há histórias que precisam ser verdadeiras.

E há outras que só precisam ser bem contadas.

Desde então, quando encontro pescador na beira de rio, escuto tudo com muita atenção.

Só tomo um pequeno cuidado:

nunca pergunto o tamanho do peixe.

Nota da autora:

Esta crônica nasceu de um pequeno texto que escrevi em outubro de 2021 e publiquei no Recanto das Letras em 1º de janeiro de 2022, com o título Tia Onça e o Pescador. Naquele tempo, ela ainda era Tia Onça, aventureira, fotógrafa, companheira de Shake e andarilha das matas. Anos depois, reencontrei aquelas poucas linhas e percebi que havia uma crônica inteira escondida dentro delas.

Texto original: Tia Onça e o Pescador — outubro de 2021.

Nova versão: Helena Bernardes — agosto de 2026.

Helena Bernardes

COMO NASCEU A VOVÓ ONÇA

 


Da mulher bicho do mato à personagem que encontrou nas crianças uma nova maneira de falar sobre a natureza

Antes de ser Vovó Onça, eu já rondava a vida de Helena Bernardes sem que ela percebesse.

Durante a semana, Helena trabalhava vendendo pneus. Estradas, clientes, viagens e aquela rotina corrida de quem precisava ganhar a vida.

Mas chegava o fim de semana e o cenário mudava.

Ela ia para uma chácara em Anápolis, próxima às nascentes do Rio Piracanjuba. Ali, trocava o movimento das estradas pelo silêncio da mata.

De manhã cedo, pegava a câmera fotográfica e saía para caminhar.

Fotografava árvores, flores, orquídeas, animais, nascentes e tudo aquilo que encontrava pelo caminho. Muitas vezes, Shake, seu cachorro preto, acompanhava aquelas pequenas expedições.

Os sobrinhos começaram a brincar com aquele jeito dela de desaparecer pelo mato e lhe deram um apelido:

“Mulher bicho do mato.”

Depois veio outro:

Tia Onça.

Mal sabiam eles que estavam ajudando a batizar uma personagem que ainda levaria alguns anos para nascer.

De Tia Onça a Vovó Onça

O tempo passou.

Então chegaram JPzinho e Leia.

Helena virou avó.

E convenhamos: se a Tia Onça agora era avó, o destino do nome estava praticamente resolvido.

Nasceu a Vovó Onça.

Com os netos vieram as histórias. Depois chegaram outros personagens, florestas imaginárias, animais falantes, nascentes que precisavam ser protegidas e aventuras criadas para conversar com as crianças sobre o cuidado com o planeta.

A mulher que durante tantos anos observara a natureza percebeu que poderia transformá-la em literatura.

E eu fui ficando.

Deixei de ser apenas um apelido e virei personagem.

Mas a Vovó Onça não tinha cabelo!

Não tinha mesmo.

Quando apareci nas primeiras histórias, eu era uma onça-pintada idosa, com minhas pintinhas, meus óculos redondos e meu inseparável xale lilás.

Nada de cabelo humano.

Só que personagens também envelhecem, mudam e acompanham a história de quem os criou.

Quando cheguei aos 70 anos, ganhei uma novidade: cabelos humanos, curtos e grisalhos, inspirados nos cabelos de Helena.

Portanto, se você encontrar por este blog imagens antigas de uma Vovó Onça sem cabelo e, nas mais recentes, uma onça grisalha toda faceira, não estranhe.

Sou eu mesma.

Não troquei de personagem.

Só fui ao cabeleireiro. 😄

Afinal quando nasceu a Vovó Onça?

Essa é a pergunta mais difícil.

Talvez eu tenha nascido quando Helena entrou pela primeira vez no mato levando uma câmera.

Talvez quando alguém a chamou de Tia Onça.

Talvez quando chegaram os netos.

Ou talvez eu sempre estivesse por ali, escondida entre uma nascente, uma fotografia, uma estrada e um caderno esperando a hora certa de aparecer.

Hoje sei a resposta que prefiro:

Eu não cheguei de repente à vida de Helena Bernardes. Eu já morava nela.

Só precisei de duas crianças para ganhar o nome de Vovó.

🐆 Vovó Onça

Personagem criada por Helena Bernardes, nascida das memórias, da natureza, da educação ambiental e das histórias contadas às crianças.

© Helena Bernardes — Todos os direitos reservados.

Minha mãe não tinha audiobook. Tinha voz.

Da tradição oral ao celular, algumas histórias apenas mudaram de caminho.

Minha mãe, Adoniria, a nossa Vovó  Preta, não sabia ler nem escrever.

Mas sabia contar histórias.

Foi minha primeira contadora de histórias, talvez, sem que nenhuma de nós soubesse, minha primeira professora de literatura.

Ela contava histórias por capítulos.

Isso mesmo: capítulos.

Não estavam escritos em caderno algum. Não havia livro aberto sobre o colo, marcador de página ou anotação para lembrar onde havia parado. A história morava inteira na memória dela.

A cada dia, vinha um pedaço.
E depois acabava.

Era preciso esperar o dia seguinte.

Hoje chamariam isso de estratégia narrativa.

Suspense. 
Gancho para o próximo episódio. 

Uma maneira eficiente de manter o público interessado.

Vovó Preta simplesmente dizia:

— Amanhã eu continuo.

E pronto.

Nós ficávamos esperando.

Talvez por isso eu ache curioso quando tratamos o audiobook, o podcast e tantas outras formas de narrativa em áudio como grandes invenções do nosso tempo.

A tecnologia é nova.

O costume, não.

Muito antes de alguém apertar o play, histórias já atravessavam gerações pela voz. Antes das telas, dos aplicativos e dos fones de ouvido, havia gente sentada perto de gente, contando o que lembrava, inventando o que faltava e guardando na memória aquilo que não podia guardar no papel.

Minha mãe era analfabeta.

Durante muito tempo essa palavra serviu para dizer aquilo que uma pessoa não sabia fazer.

Hoje, quando penso nela, prefiro lembrar tudo aquilo que ela sabia.

Sabia criar expectativa.

Sabia guardar personagens.

Sabia continuar uma história no dia seguinte.

Sabia fazer uma criança imaginar lugares que nunca tinha visto.

E sabia uma coisa que nenhum aplicativo inventou:

fazer da própria voz um lugar onde os outros podiam entrar.

Décadas depois, aqui estou eu.

Escrevo no celular, converso com inteligência artificial, publico na internet, transformo histórias em áudio e vejo livros inteiros caberem dentro de um aparelho que seguramos na palma da mão.
Parece que fomos muito longe.

E fomos.

Mas, quando alguém coloca os fones de ouvido e fecha os olhos para escutar uma história, penso que talvez estejamos fazendo uma viagem de volta.

Do audiobook à voz.

Do digital à roda de histórias.

Da tecnologia à memória.

Talvez as máquinas não tenham inventado uma nova maneira de contar.

Talvez tenham apenas construído uma estrada nova para uma coisa antiquíssima:
 uma pessoa contando e outra querendo saber o que acontece depois.

E, se hoje sou escritora, gosto de pensar que minha história com as palavras começou antes mesmo de eu perceber a importância delas.

Começou ouvindo uma mulher que não sabia escrever.

Minha mãe não tinha audiobook.

Tinha voz.

E eu tinha o privilégio de esperar pelo capítulo de amanhã.

Helena Bernardes
27 de agosto 2026 

Quem eu era quando comecei a escrever




Quando comecei a escrever, eu já trabalhava com crianças, em escolinha infantil. 

Talvez por isso as histórias e os personagens tenham encontrado terreno tão fértil em mim: eu convivia diariamente com imaginação, brincadeira, descoberta e aquele jeito muito próprio que a infância tem de transformar qualquer coisa em mundo.

Também havia as festas, as quadrilhas e os personagens que inventávamos para brincar. 

Em uma delas, eu fazia um personagem masculino "Tonhão " e meu par era Tonha Taca. 

Era só parte da diversão, da encenação, daquele tempo em que a gente se permitia criar tipos, vozes e histórias sem pensar demais no nome disso.

Hoje vejo que muita coisa começou ali.

Antes dos livros, antes dos projetos e antes de personagens ganharem vida no papel, já existia em mim essa vontade de observar, inventar, representar e contar.

A escrita veio depois, mas a imaginação já estava trabalhando fazia tempo.

Helena Bernardes

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

📚 A PALAVRA CONTINUA

 Três livros que nasceram separados e que, ao colocá-los lado a lado, percebi que pertenciam à mesma família:

📖 Entre o Chão e o Céu

📖 As Vozes do Tempo

📖 Tapera Assombrada


Os três estão concluídos em edição digital e agora passam a integrar a Coleção A Palavra Continua.

Terra, memória, casa e tempo atravessam essas obras de maneiras diferentes. No fundo, porém, todas falam daquilo que permanece quando os anos passam.

A palavra guarda.

A palavra atravessa o tempo.

A palavra continua.

Nos próximos dias, pretendo apresentar um pouco de cada obra por aqui.

✍️ Helena Bernardes

E começo com uma pergunta:

Qual desses três títulos despertaria primeiro a sua curiosidade?



terça-feira, 25 de agosto de 2026

DE ONDE VEIO A CONTADORA DE HISTÓRIAS

Minha mãe, Vovó Preta, e as noites sob a Via Láctea

Meu pai morreu quando eu tinha cinco anos.

Chamava-se João. Era lavrador e encantador de cavalos. Tenho poucas lembranças dele, porque a vida não me deu tempo suficiente para juntar muitas. Ficaram fragmentos, histórias contadas pelos outros e aquela ausência antiga que acompanha a criança sem que ela saiba dar nome.

Depois dele, foi minha mãe quem segurou muita coisa.

Adonília.

Analfabeta.

Tecelã.

Contadora de histórias.

Hoje penso que talvez tenha sido dela que herdei essa mania de transformar tudo em narrativa.

Morávamos em um rancho, e à noite ela reunia os filhos do lado de fora. Sentávamos sob um céu tão cheio de estrelas que dava para enxergar a Via Láctea.

Não havia televisão.

Não havia celular.

Não havia plataforma nenhuma perguntando se queríamos assistir ao próximo episódio.

Havia minha mãe.

E isso bastava.

Ela inventava histórias.

Histórias compridas, cheias de gente, bichos, caminhos, perigos, mistérios e acontecimentos que pareciam não terminar nunca.

Nós ficávamos ali ouvindo.

Quando percebia que nossos olhos já estavam pesados de sono, ela interrompia justamente na melhor parte e dizia:

— Amanhã conto o resto. Vamos dormir com os anjos agora.

Hoje eu rio quando me lembro disso.

Minha mãe já fazia novela antes de existir streaming.

Era o verdadeiro:

“Aguardem o próximo capítulo.”

E funcionava.

No dia seguinte, estávamos todos ali outra vez.

Minha irmã mais velha, Caetana, já era casada e tinha filhos pequenos. Morava em outro rancho, não muito longe do nosso.

Mesmo assim, todas as noites aparecia com as crianças para ouvir as histórias de nossa mãe.

Penso nessa cena e quase consigo enxergá-la inteira: os filhos, os netos, o escuro do campo, o céu imenso e Adonilia conduzindo todo mundo para dentro de um mundo que só existia porque ela começava a falar.

Minha mãe não sabia ler.

Mas sabia narrar.

Não conhecia teoria literária.

Mas sabia exatamente onde interromper uma história para fazer o ouvinte voltar no dia seguinte.

Não tinha livros publicados.

Mas tinha plateia.

E das boas.

Talvez tenha sido ali, naquele rancho, que nasceu em mim a contadora de histórias.

Muito antes dos meus cadernos.

Muito antes dos livros.

Muito antes da Vovó Onça.

Eu já estava aprendendo.

Aprendendo que uma história pode reunir uma família.

Que palavra pode iluminar uma noite sem eletricidade.

Que imaginação não depende de dinheiro.

E que, às vezes, a pessoa que mais nos ensina sobre literatura nunca aprendeu a escrever o próprio nome.

Minha mãe ficou conhecida por muitos nomes.

Vovó Preta.

Tia Preta.

Mãe Preta.

Comadre Preta.

Mas ela era de pele clara.

O apelido nasceu na infância.

Meu avô chamava ela de  “pretrinha” de tanto pegar sol no curral, sempre andando atrás dele. E o nome acabou ficando.

Com o tempo, quase ninguém chamava Adonília de Adonília.

Ela virou simplesmente Preta.

E o apelido, que começou como brincadeira, tornou-se nome de afeto.

Hoje, tantos anos depois, percebo que muita coisa que faço começou naquele quintal de terra.

Quando escrevo para crianças.

Quando invento personagens.

Quando termino um texto deixando uma pergunta no ar.

Quando digo que depois conto o resto.

Quando observo meus netos esperando uma nova história.

Lá está ela.

Adonília.

Minha mãe.

A  primeira contadora de histórias que conheci.

A razão pela qual, até hoje, eu ainda acredite que toda boa história deve terminar deixando uma pequena porta aberta.

Afinal, foi assim que aprendi:

— Amanhã conto o resto.

Helena Bernardes
25 agosto 2026

PÉS


PÉS
Helena Bernardes

Passei a vida olhando para a frente,
e quase nunca para eles.

Meus pés.

Esses dois companheiros silenciosos
que nunca pediram aplausos
por todos os lugares
aonde me levaram.

Pés de menina,
descalços na terra,
que conheceram poeira, capim,
pedra quente
e água de enxurrada.

Pés de moça,
apressados,
achando que a vida estava longe
e que era preciso correr
para alcançá-la.

Pés de mulher,
que entraram por portas
que davam medo,
saíram por outras
que precisavam ser fechadas
e continuaram andando.

Carregaram filhos,
sacolas,
trabalho,
sonhos,
cansaços
e alguns mundos inteiros.

Tropeçaram.

Claro que tropeçaram.

Quem atravessa uma vida
sem tropeçar
provavelmente ficou sentado demais.

Hoje,
gosto de colocá-los para cima,
na varanda,
diante da manhã.

Eles já não têm pressa.

Têm marcas.

E talvez as marcas sejam
a caligrafia do tempo
escrevendo no corpo
a história que a memória
às vezes esquece.

Olho para meus pés
e penso:

vocês foram longe.

Muito mais longe
do que aquela menina descalça
poderia imaginar.

Agora descansem um pouco.
Ainda temos caminhos pela frente,
mas já aprendemos uma coisa:

nem toda viagem
precisa ser feita depressa.

Às vezes,
chegar até uma manhã tranquila,
erguer os pés na varanda
e contemplar o céu

também é
uma forma bonita
de ter chegado.

25 de agosto 2026

Escrevo Assim


"Entre a varanda, a manhã e a vida que insiste em virar palavra" 

Hoje escrevo assim.

Com os pés para o alto, a varanda aberta para o mundo e a cabeça cheia de histórias.

Não há escrivaninha elegante, silêncio de biblioteca nem ritual solene. Há uma rede, prédios ao fundo, palmeiras balançando, barulhos da cidade chegando de longe e uma mulher tentando transformar lembrança em palavra.

Gosto dessa fotografia porque ela não foi preparada.

Ela simplesmente aconteceu.

E talvez seja exatamente isso que mais se parece com a minha escrita de hoje.

Escrevo no meio da vida.

Entre uma lembrança e outra.
Entre um café e uma mensagem. Entre uma fotografia antiga e uma história que ainda não terminou dentro de mim.

Durante muitos anos, escrevi em cadernos.

Escrevi cartas para mim mesma. Escrevi para Deus. Escrevi para entender o que estava vivendo e, muitas vezes, apenas para não deixar que os dias desaparecessem sem registro.

Hoje continuo fazendo a mesma coisa.

Mudaram as ferramentas.

Mudou a paisagem.

Mudou a mulher.

Mas a necessidade de escrever continua ali.

Talvez até mais forte.

Porque chega um tempo em que a gente percebe que memória também precisa de casa.

E eu tenho tentado dar uma casa às minhas.

Helena Bernardes

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Voltar ao Blogger é voltar para casa

Há lugares que permanecem nos esperando, mesmo quando passamos algum tempo longe deles.
Este blog é um desses lugares.

Foi aqui que muitas das minhas palavras encontraram morada. Aqui publiquei histórias, poemas, lembranças, reflexões e fragmentos de uma vida inteira dedicada à escrita.

Depois, vieram outras plataformas, novos projetos e diferentes maneiras de conversar com os leitores.

Passei pelo Instagram, pelo Substack e por tantos caminhos que a tecnologia abriu diante de nós.

Mas não abandonei esta casa.

Hoje retorno ao Blogger com outro olhar e muitas histórias na bagagem. Continuo sendo Helena Bernardes, escritora e observadora da vida, mas agora caminho acompanhada por livros publicados, novos personagens e pela querida Vovó Onça — contadora de histórias, guardiã da natureza e porta-voz de um universo construído com memória, afeto e imaginação.

Minha escrita também amadureceu. Ela carrega as marcas do tempo, das perdas, dos recomeços e das estradas que percorri. Fala da infância na roça, das mulheres da minha família, dos meus filhos e netos, da natureza que pede socorro e das pequenas cenas cotidianas que quase ninguém percebe.

O Blogger continuará sendo o lugar onde essas histórias poderão repousar com calma. Sem a pressa das redes sociais, sem a obrigação de caber em poucas linhas e sem desaparecer depois de alguns segundos. Aqui, cada texto poderá criar raízes.

Não pretendo escolher apenas uma plataforma. Cada espaço tem sua linguagem e sua importância. O Substack seguirá como meu Caderno Aberto; o Instagram mostrará imagens e breves momentos; e este blog continuará guardando as histórias que a vida conta.

Voltar não significa caminhar para trás. Às vezes, voltar é reconhecer onde nossas raízes permaneceram.

Por isso, abro novamente esta porta.

Se você já esteve aqui, seja bem-vindo de volta. Se chegou agora, encontre um lugar para se sentar. Ainda há muito chá para servir, muitas lembranças no baú e muitas histórias esperando a sua vez.

A casa está aberta.

Continue acompanhando meu trabalho:



Helena Bernardes
Escritora e criadora da Vovó Onça

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

A Série Helena Bernardes Começa Aqui | Lançamento dos Livros 2026

A Série Helena Bernardes Começa Aqui | Lançamento dos Livros  Literários 2026
Disponível em:
📙 Tapera Assombrada — A Saga de Mariana

Um testemunho real que rompe o silêncio e transforma memória em literatura.

 Disponível em:


Uma investigação que atravessa ciência, reflexão e espiritualidade, conduzindo o leitor a pensar com profundidade e responsabilidade.
Disponível em:

📗 As Vozes do Tempo — O Caminho da Palavra

Uma análise sobre a evolução da comunicação humana, seus impactos culturais e a responsabilidade que carregamos ao usar a palavra.

Esses livros inauguram oficialmente a Série Helena Bernardes — uma coleção construída com padrão editorial definido, identidade visual consolidada e compromisso com a profundidade.

Também escrevo para crianças.

Além da Série Helena Bernardes, desenvolvo um projeto literário infantil voltado para escolas. 

A Série Vovó Onça na Escola é dedicada à formação de leitores, à educação ambiental e à valorização da imaginação como ferramenta de aprendizado. A série oferece leitura gratuita como parte de um projeto literário educativo pensado para professores, alunos e famílias que acreditam no poder transformador da palavra desde a infância.

Porque formar leitores começa cedo. E acredito que a literatura também é responsabilidade social.

Sou escritora brasileira, autora da Série Helena Bernardes, com obras publicadas em formato digital,(E-book ) e criadora da personagem Vovó Onça, referência em projetos literários infantis voltados para escolas. Minha escrita transita entre reflexão contemporânea, memória, espiritualidade e compromisso educativo.

Escrever não é passatempo.
É responsabilidade com a palavra.

Helena Bernardes
Lançamento literário 2026


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Tapera Assombrada – A Saga de Mariana

      Helena Bernardes, 2026

Um testemunho real sobre o que a vida não apaga.

Hoje eu não trago apenas um livro.
Trago um pedaço de vida.

Tapera Assombrada – A Saga de Mariana nasce de uma história real.
De uma mulher que atravessou o tempo, enfrentou silêncios longos, guardou dores, e só agora decidiu abrir a porta do passado.

Não é ficção inventada para entreter.
É relato de quem viveu.

É sobre escolha.
É sobre o que permanece.
É sobre o que a vida não consegue apagar.

Mariana nasceu em uma época difícil, marcada por medo, escassez e silêncio. Cresceu em meio a conflitos que não eram apenas do mundo, mas também da própria alma. Este livro revela aquilo que ficou guardado por décadas.

Há memórias que pesam.
Há verdades que libertam.

Escrevi este livro com respeito.
Com responsabilidade.
E com o compromisso de não deixar uma história morrer com o tempo.

Se você acredita que toda vida merece ser contada, se você valoriza relatos reais, se você entende que o passado molda o presente, este livro é para você.


Helena Bernardes
12 fevereiro 2026

Histórias que a Vida Conta — por Helena Bernardes

     Helena Bernardes - 2026

Ao longo dos anos, escrevi muitas histórias. Algumas nasceram do cotidiano, outras da memória, outras ainda do silêncio que só aparece quando paramos para escutar. Todas têm algo em comum: foram contadas pela própria vida.

“Histórias que a vida conta” não é apenas um título. É uma forma de olhar o mundo. É reconhecer que cada acontecimento, cada perda, cada descoberta e cada pergunta carrega uma narrativa esperando para ser compreendida.

Sou Helena Bernardes, escritora goiana, cronista, poetista  e autora de obras que transitam entre a literatura infantil, a memória e a investigação. Minha escrita sempre partiu da observação atenta, da terra, da família, da natureza e, mais recentemente, do próprio céu.

Esse caminho me levou ao lançamento de Entre o Chão e o Céu — Um Estudo em Andamento (2026), um ensaio científico-reflexivo que percorre temas como atmosfera, ionosfera, HAARP, satélites, missão Apollo, exoplanetas e a busca por vida fora da Terra.

Se antes as histórias que a vida contava estavam nos quintais, nas lembranças e nas conversas, agora também estão nos dados, nos instrumentos científicos e nos sinais captados a anos-luz de distância.

Porque a vida conta histórias no chão, mas também conta histórias no céu.

Escrever é escutar essas narrativas e organizá-las com respeito.
Seja em crônicas, seja em ensaio científico, fábulas, projetos culturais, o gesto é o mesmo: perguntar com atenção e responder com responsabilidade.

📘 Entre o Chão e o Céu — Um Estudo em Andamento está disponível em formato digital.


Continuo escrevendo.
Porque a vida continua contando.

— Helena Bernardes
13 fevereiro, 2026

domingo, 1 de fevereiro de 2026

O Homem que não era ele (Parte Final)

O corpo foi o primeiro a lembrar.

Antes da memória organizada, antes das palavras certas, antes da confiança, foi o corpo que respondeu. Um convite simples. Um campo conhecido. Gente que não exigia explicação. Apenas presença.

Ele foi. Sem expectativa. Sem promessa.

O gramado tinha o mesmo cheiro de antes. A mesma irregularidade sob os pés. O corpo reconheceu o espaço antes que a cabeça tivesse tempo de duvidar. O aquecimento veio automático. O gesto antigo reapareceu sem esforço. Correr ainda fazia sentido.

Não era competição. Não havia placar. Não havia cobrança. Era apenas movimento. Amigos antigos. Risadas curtas. O filho por perto, observando sem saber exatamente o que procurar.

Ali, ele não era advogado.
Não era paciente.
Não era diagnóstico.

Era só alguém ocupando o próprio corpo outra vez.

Voltou outras vezes. Sempre com cuidado. Sempre respeitando limites que antes não existiam. O cansaço vinha mais rápido. A concentração falhava. Mas o pertencimento permanecia.

Foi nesse espaço que decidiram fazer algo por ele. Não como prêmio. Como reconhecimento. Uma homenagem simples, pensada mais como gesto do que como espetáculo.

No dia marcado, ele chegou sem saber exatamente o que ia acontecer. O campo estava cheio. Pessoas que ele conhecia de diferentes fases da vida. Outras que conheciam apenas parte da história.

O telão foi ligado.

O nome apareceu primeiro. Depois imagens. Palavras escolhidas com cuidado. Não falaram da queda. Não falaram da doença. Falaram do homem. Do que tinha sido. Do que ainda era.

Ele assistiu em silêncio. Não chorou. Não sorriu demais. Apenas ficou ali, absorvendo algo que não sabia se merecia, mas que precisava receber.

Ser visto daquele jeito devolveu alguma coisa que ele não sabia que tinha perdido.

Não resolveu nada.
Mas sustentou.

Depois disso, a vida seguiu no mesmo ritmo possível. Trabalho simples. Dias repetidos. Filhos mais próximos. Conversas sem urgência. A memória continuava irregular. Algumas falhas nunca se corrigiram.

Foi então que ela apareceu.

A enfermeira não entrou como promessa. Entrou como espelho. Conversaram sem pressa. Descobriram, em algum momento, o ponto em comum. O mesmo tipo de tumor. O mesmo lugar da cabeça. As mesmas dificuldades.

Não precisaram explicar muito. O reconhecimento foi imediato.

Ela entendia os esquecimentos. Ele entendia os silêncios. Não havia heroísmo ali. Havia convivência.

Dois corpos remendados.
Duas histórias fora do roteiro.

Ele não voltou a ser quem foi.
Mas deixou de tentar.

Aprendeu a viver como quem caminha em terreno irregular: atento, devagar, presente. Algumas memórias voltavam. Outras ficavam para sempre ausentes. A identidade já não cabia em um título profissional ou em um passado de sucesso.

Era outra coisa agora.

Um homem possível.
Ele acorda cedo. Não por hábito antigo, mas porque o corpo pede. A casa ainda está quieta. A luz entra baixa, sem pressa, desenhando sombras que ele não tenta mais decifrar.

Prepara o café com cuidado excessivo. Mede a água. Espera ferver. Às vezes esquece se já colocou o pó. Confere. Recomeça. Não se irrita.

Sentado à mesa, observa as próprias mãos. Reconhece nelas algo que não depende da memória. Estão ali. Funcionam. Sustentam.

Do lado de fora, o dia acontece como sempre aconteceu. Pessoas passam. Um ônibus freia. Um cachorro late. Nada anuncia importância. Nada exige resposta.

Ele pensa nos filhos. Não em culpa. Não em ausência. Pensa neles como quem aceita continuidade. Eles existem. Ele existe para eles, do jeito que consegue.

Levanta. Veste o casaco pendurado atrás da porta. O mesmo de sempre. Ajusta a gola sem olhar no espelho. Não precisa confirmar quem é.

Antes de sair, para por um instante. A mão na maçaneta. Um segundo coincidente com nada. Não lembra exatamente do que esqueceu. Também não procura.

Abre a porta.

O mundo não devolveu o que tirou.
Mas deixou espaço suficiente para ficar.

Ele atravessa.

Helena Bernardes
Histórias que a Vida Conta 
Janeiro 2026

O homem que não era ele (Parte II)


O hospital tinha um cheiro que ele não soube nomear. Não era dor. Não era medo. Era uma suspensão estranha, como se o tempo tivesse sido colocado em espera. Pessoas falavam perto dele, mas as palavras chegavam quebradas, sem ordem.

O irmão foi o primeiro rosto reconhecível. Não pelo nome, que demorou a vir, mas pelo jeito de estar ali. Havia preocupação sem pânico. Um cuidado contido. Como quem já pressente que algo grande vai ser dito.

Os exames começaram a organizar o que antes era ruído. Máquinas, imagens, linhas claras demais para quem sempre viveu no território das certezas abstratas. Pela primeira vez, a resposta não veio em forma de rótulo comportamental. Veio em forma de imagem.

Havia algo ocupando espaço onde não deveria estar.

A palavra foi dita com cautela, como se o tom pudesse diminuir o impacto. Tumor. Curto. Exato. Sem adjetivos. A explicação veio depois, mas a palavra já tinha feito o trabalho principal: reorganizar tudo o que tinha acontecido antes.

Nada do que ele foi nos últimos tempos era exatamente ele.

A agressividade. A confusão. O descontrole. A distância dos filhos. A separação. Os erros repetidos. A sensação de estar fora do próprio eixo. Tudo passou a fazer um sentido que não trazia alívio. Apenas clareza tardia.

Não houve choro imediato. Houve silêncio. Um silêncio denso, pesado, que parecia exigir tempo para ser atravessado. Culpa não encontrou endereço fixo. Não havia um responsável único. Apenas uma sucessão de decisões incompletas.

A cirurgia foi marcada. O risco foi explicado. As possibilidades também. Ele ouviu como quem já não tinha escolha. O corpo que sempre respondeu agora exigia permissão para continuar.

Depois da cirurgia, veio o estranho alívio de estar vivo misturado à sensação de não estar inteiro. A memória começou a falhar de maneiras imprevisíveis. Algumas lembranças voltavam nítidas demais. Outras não voltavam de jeito nenhum.

O trabalho ficou distante. Não por falta de vontade, mas por impossibilidade prática. As palavras jurídicas, antes organizadas em sequência lógica, se embaralhavam. 
Testes eram feitos. Entrevistas. Tentativas. Nenhuma se sustentava.

O homem que tinha sido referência agora precisava reaprender gestos simples. Organizar o dia. Lembrar compromissos. Aceitar limites que não escolheu.

Foi assim que chegou ao trabalho mais próximo de casa. A escola. O turno curto. A função simples. Limpar. Organizar. Repetir. Não havia vergonha nisso. Havia sobrevivência.

Ele fazia o que podia fazer.

Os filhos demoraram a voltar. Quando voltaram, foi aos poucos. Primeiro mensagens. Depois encontros curtos. Depois silêncio compartilhado. Não houve pedido formal de perdão. Houve compreensão. Tardia, mas real.

Eles começaram a entender que o pai agressivo não era o pai. Era a doença falando através dele. Esse entendimento não apagava o passado, mas permitia algum tipo de aproximação possível.

A vida não se recompôs. Ela se rearranjou.

sábado, 31 de janeiro de 2026

O Homem que não era ele (Parte I)

Imagem: Helena Bernardes 

O HOMEM QUE NÃO ERA ELE 

Novela Literária 
Autora: Helena Bernardes 

Esta obra é inspirada em relatos reais. Nomes, lugares e detalhes foram alterados para preservar identidades e respeitar histórias pessoais.

Texto © Helena Bernardes
Todos os direitos reservados.

É proibida a reprodução total ou parcial desta obra, por qualquer meio ou forma, sem autorização da autora.

Brasil
2026

Ele sempre acreditou que a vida obedecia a uma ordem.
Estudo, trabalho, esforço, resultado.
Nada vinha por acaso. Tudo tinha causa.

Era um homem respeitado. Não apenas pelo que fazia, mas pelo modo como ocupava os lugares. Entrava em uma sala e sabia onde sentar. Falava pouco. O suficiente. Havia aprendido cedo que controle era uma forma de segurança.

O corpo ajudava. Forte, treinado, acostumado a disciplina. Durante anos, o movimento foi linguagem. O campo, o ritmo, a regra clara: correr, avançar, proteger, vencer. O corpo obedecia. A cabeça também.

Construiu uma vida que, vista de fora, parecia completa. Trabalho sólido. Reconhecimento. Dinheiro guardado sem alarde. Uma família que funcionava como um acordo silencioso: cada um cumpria o seu papel.

Ele gostava dessa previsibilidade.
Gostava de saber quem era.

Não havia sinais claros de que algo estivesse fora do lugar. Nenhuma dor que exigisse atenção. Nenhum colapso visível. Apenas pequenas mudanças que, no início, pareciam cansaço. Irritação. Pressão acumulada. Coisas normais para um homem que carregava responsabilidades.

Aos poucos, o tom de voz mudou.
Depois, o olhar.
Depois, o silêncio excessivo ou a palavra dura demais.

Nada que justificasse alarme. Pelo menos não naquele momento.

As pessoas ao redor começaram a se adaptar. Caminhar em volta. Diminuir perguntas. Atribuir nomes fáceis ao que não compreendiam. 
Temperamento difícil. Estresse. Problema de humor.

Ele próprio passou a desconfiar menos de si do que dos outros. Afinal, ainda era o mesmo homem. Pelo menos era o que acreditava.

Não sabia, ninguém sabia, que a ordem já tinha sido quebrada por dentro.
Que algo crescia em silêncio, ocupando espaço onde antes havia memória, controle e equilíbrio.

A vida seguia.
E ele seguia junto.
Sem saber que já estava começando a se perder.

A convivência começou a se estreitar sem que ninguém percebesse quando isso aconteceu. Não houve um dia específico, nem uma frase definitiva. Apenas um ajuste contínuo, quase imperceptível, como quem fecha uma porta para evitar o vento.

Ele passou a reagir com impaciência a coisas pequenas. Um copo fora do lugar. Um comentário atravessado. Um atraso mínimo. As respostas vinham mais rápidas do que ele pretendia. Depois vinham o arrependimento e a sensação estranha de não reconhecer totalmente o que tinha acabado de dizer.

Em casa, o ambiente mudou primeiro. O espaço ficou menor. As conversas ficaram curtas. O cuidado passou a ser calculado. As pessoas falavam com ele medindo o tom, escolhendo horários, evitando certos assuntos.

Não era medo declarado. Era prudência.

Os filhos começaram a se afastar sem nomear o motivo. Não sabiam explicar o que sentiam. Apenas sabiam que algo ali não estava seguro como antes. Ele percebeu a distância, mas interpretou como fase, idade, ingratidão. Era mais fácil pensar assim.

A mulher tentou, por algum tempo, sustentar a rotina. Organizar horários. Criar regras. Sugerir descanso. Procurar ajuda. As consultas vieram carregadas de palavras prontas. Transtorno. Instabilidade. Bipolaridade. Ansiedade. Depressão.

Os nomes se acumulavam.
Os remédios também.

Ninguém perguntou pela cabeça.
Ninguém pediu imagens.
Ninguém suspeitou do silêncio físico que crescia onde deveria haver dor.

Ele tomou os comprimidos como quem cumpre uma sentença sem entender o crime. Algumas coisas melhoraram por alguns dias. Outras pioraram. A agressividade apareceu com mais força. Não era violência contínua, mas era imprevisível. Isso cansava mais do que um conflito aberto.

A separação veio como consequência, não como decisão. Quando aconteceu, parecia já ter sido tomada havia muito tempo. A casa esvaziou. O acordo silencioso que sustentava a família deixou de existir.

Ele ficou só sem compreender exatamente quando tinha perdido tudo.

Ainda assim, continuava trabalhando. Funcionando. Entregando resultados. O mundo de fora não via rachaduras. O mundo de dentro já estava comprometido.

Às vezes, ele parava no meio de um pensamento e precisava refazer o caminho. Esquecia compromissos simples. Repetia perguntas. Dizia que era cansaço. Ninguém discordava. Era mais confortável concordar.

O dia do colapso não anunciou nada. Começou como qualquer outro. Um deslocamento comum. Um estacionamento. O corpo falhou antes que a mente pudesse explicar.

Ele caiu.

Foi levado ao hospital sem memória imediata do que tinha acontecido. Chamaram a família. Chamaram o irmão. Chamaram nomes que já não sabiam mais como se encaixar naquela história.

Só então alguém olhou para a cabeça.
E o erro apareceu inteiro.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Quando a floresta vira leitura

Dois livros nasceram do mesmo silêncio e da mesma escuta.

Um fala do tempo.
O outro, da floresta que vive dentro de nós.

Se você caminha com cuidado, talvez eles caminhem com você.



Amanhecer

O dia não bateu à porta.
Ele cantou.

Acordei com o bem-te-vi na janela, voz firme, repetida,
como quem sabe exatamente
a hora de chamar o mundo de volta.

Não estava sozinho.
Das árvores do jardim veio um coral inteiro, pássaros conversando entre si,
afinados no mesmo instante,
me dando bom dia
sem precisar de palavra humana.

Fiquei quieta.
Aprendi faz tempo que certos despertares pedem escuta antes de resposta.

A manhã se anunciou assim:
com canto, com folha mexendo devagar, com a certeza simples de que a vida continua mesmo quando a gente dorme.

O bem-te-vi insistiu.
Não por urgência.
Por constância.

Levantei agradecendo.
Há dias que começam com café.
Outros começam com bênção.

Hoje foi assim.

Helena Bernardes
Histórias que a vida conta
Amanhecer, 27 janeiro 2026 

Hoje


Hoje não aconteceu nada extraordinário.
E isso já foi muito.

O dia passou com seus ruídos comuns, seus pequenos atrasos, suas tarefas que parecem repetir mas nunca são iguais.

Escrevo porque aprendi que o hoje não se guarda sozinho.

Se a gente não anota, ele escapa pelas frestas como água em mão aberta.

Hoje houve pensamento solto,
um olhar demorado, uma vontade de ficar quieta sem precisar explicar.

A vida não fez discurso.
Só passou.
E eu, que já aprendi a escutar,
anotei.

Helena Bernardes
Histórias que a vida conta
Hoje

Quando a Luz Atravessa a Mata

Não era fogo.
Era memória derretida.

As velas haviam cumprido o que sabiam fazer:
queimar pedidos,
sustentar silêncios,
abrir caminho.

Da cera escorrida nasceu um arco, não de pedra, não de ferro, mas de fé cansada que não desistiu.

Dentro dele, a luz não feria os olhos.
Ela acolhia.

A presença não se mostrava inteira..Era contorno, sombra viva, movimento antigo entre folhas.

O arco e a flecha não apontavam para fora.
Apontavam para dentro.

Oxóssi não atravessa portais à toa. Ele vem quando a mata é respeitada, quando o pedido é justo e quando o coração aprende a esperar.

O lago, ao longe, guardava o reflexo. A lua vigiava.
Três estrelas alinhadas lembravam que há mistérios que caminham juntos
e não precisam de nome alto.

Nada ali era nítido.
Porque o sagrado não grita.
Ele se revela em névoa,
em luz difusa, em presença que passa e deixa o mundo mais inteiro.

Quem viu, sentiu.
Quem sentiu, entendeu.

Histórias que a vida conta
Helena Bernardes 
Mês de Oxossi 

Ontem


Ontem foi dia de organizar.
Não a casa apenas — o mundo.

As linhas de crochê pediam ordem:
cores conversando entre si,
novelos desatando antigos nós, paciência em forma de fio.

Depois vieram as pastas de documentos.
Papéis que contam quem fui,
quem sou, e o que ainda preciso guardar para não esquecer de mim.

As gavetas se abriram como confidências.
Algumas guardavam excessos, outras só silêncio.

Tudo precisou de lugar,
até o que já não servia.

Livros voltaram às estantes
com aquele peso bom de quem espera.
Cadernos de anotações se deixaram folhear, lembrando que muita coisa foi pensada
antes de ser escrita.

Não foi um dia barulhento.
Foi um dia necessário.

Organizar o que é meu
sempre foi meu jeito de acalmar o mundo.

Quando tudo encontra seu lugar, eu também encontro o meu.

Helena Bernardes
Histórias que a vida conta
Ontem

Helena Bernardes "Palavras em Todos os Cantos"

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sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Voltei para contar

 O dia em que voltei a contarHouve um tempo em que o silêncio ocupou esta casa.


Não por falta de histórias — a vida nunca economiza —mas por excesso delas.


Algumas a gente escreve. Outras a gente atravessa.


Este espaço ficou quieto enquanto eu aprendia a escutar de novo.


Escutar o passo lento, o pensamento que amadurece,a dor que não pede legendae a alegria que não precisa anunciar chegada.


Volto agora sem pressa e sem plano grandioso.Volto porque escrever sempre foi o meu jeito de ficar.


Ficar atenta. Ficar inteira. Ficar humana.

As histórias continuam as mesmas:gente comum, dias tortos, pequenos milagres,a natureza ensinando sem palavra e o tempo, esse professor que não repete a lição.


Não prometo textos perfeitos.Prometo presença. 

A partir de hoje, este espaço volta a respirar todos os dias. Com crônicas curtas ou longas, com memória, observação e verdade —do jeito que a vida conta quando ninguém interrompe.

Se você chegou agora, seja bem-vindo. Se nunca saiu, obrigada por esperar.

Eu voltei.

E a vida, como sempre, continua contando.




Helena Bernardes

Histórias que a vida conta

Janeiro de 2026