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terça-feira, 25 de agosto de 2026

DE ONDE VEIO A CONTADORA DE HISTÓRIAS

Minha mãe, Vovó Preta, e as noites sob a Via Láctea

Meu pai morreu quando eu tinha cinco anos.

Chamava-se João. Era lavrador e encantador de cavalos. Tenho poucas lembranças dele, porque a vida não me deu tempo suficiente para juntar muitas. Ficaram fragmentos, histórias contadas pelos outros e aquela ausência antiga que acompanha a criança sem que ela saiba dar nome.

Depois dele, foi minha mãe quem segurou muita coisa.

Adonília.

Analfabeta.

Tecelã.

Contadora de histórias.

Hoje penso que talvez tenha sido dela que herdei essa mania de transformar tudo em narrativa.

Morávamos em um rancho, e à noite ela reunia os filhos do lado de fora. Sentávamos sob um céu tão cheio de estrelas que dava para enxergar a Via Láctea.

Não havia televisão.

Não havia celular.

Não havia plataforma nenhuma perguntando se queríamos assistir ao próximo episódio.

Havia minha mãe.

E isso bastava.

Ela inventava histórias.

Histórias compridas, cheias de gente, bichos, caminhos, perigos, mistérios e acontecimentos que pareciam não terminar nunca.

Nós ficávamos ali ouvindo.

Quando percebia que nossos olhos já estavam pesados de sono, ela interrompia justamente na melhor parte e dizia:

— Amanhã conto o resto. Vamos dormir com os anjos agora.

Hoje eu rio quando me lembro disso.

Minha mãe já fazia novela antes de existir streaming.

Era o verdadeiro:

“Aguardem o próximo capítulo.”

E funcionava.

No dia seguinte, estávamos todos ali outra vez.

Minha irmã mais velha, Caetana, já era casada e tinha filhos pequenos. Morava em outro rancho, não muito longe do nosso.

Mesmo assim, todas as noites aparecia com as crianças para ouvir as histórias de nossa mãe.

Penso nessa cena e quase consigo enxergá-la inteira: os filhos, os netos, o escuro do campo, o céu imenso e Adonilia conduzindo todo mundo para dentro de um mundo que só existia porque ela começava a falar.

Minha mãe não sabia ler.

Mas sabia narrar.

Não conhecia teoria literária.

Mas sabia exatamente onde interromper uma história para fazer o ouvinte voltar no dia seguinte.

Não tinha livros publicados.

Mas tinha plateia.

E das boas.

Talvez tenha sido ali, naquele rancho, que nasceu em mim a contadora de histórias.

Muito antes dos meus cadernos.

Muito antes dos livros.

Muito antes da Vovó Onça.

Eu já estava aprendendo.

Aprendendo que uma história pode reunir uma família.

Que palavra pode iluminar uma noite sem eletricidade.

Que imaginação não depende de dinheiro.

E que, às vezes, a pessoa que mais nos ensina sobre literatura nunca aprendeu a escrever o próprio nome.

Minha mãe ficou conhecida por muitos nomes.

Vovó Preta.

Tia Preta.

Mãe Preta.

Comadre Preta.

Mas ela era de pele clara.

O apelido nasceu na infância.

Meu avô chamava ela de  “pretrinha” de tanto pegar sol no curral, sempre andando atrás dele. E o nome acabou ficando.

Com o tempo, quase ninguém chamava Adonília de Adonília.

Ela virou simplesmente Preta.

E o apelido, que começou como brincadeira, tornou-se nome de afeto.

Hoje, tantos anos depois, percebo que muita coisa que faço começou naquele quintal de terra.

Quando escrevo para crianças.

Quando invento personagens.

Quando termino um texto deixando uma pergunta no ar.

Quando digo que depois conto o resto.

Quando observo meus netos esperando uma nova história.

Lá está ela.

Adonília.

Minha mãe.

A  primeira contadora de histórias que conheci.

A razão pela qual, até hoje, eu ainda acredite que toda boa história deve terminar deixando uma pequena porta aberta.

Afinal, foi assim que aprendi:

— Amanhã conto o resto.

Helena Bernardes
25 agosto 2026

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