Helena Bernardes
Passei a vida olhando para a frente,
e quase nunca para eles.
Meus pés.
Esses dois companheiros silenciosos
que nunca pediram aplausos
por todos os lugares
aonde me levaram.
Pés de menina,
descalços na terra,
que conheceram poeira, capim,
pedra quente
e água de enxurrada.
Pés de moça,
apressados,
achando que a vida estava longe
e que era preciso correr
para alcançá-la.
Pés de mulher,
que entraram por portas
que davam medo,
saíram por outras
que precisavam ser fechadas
e continuaram andando.
Carregaram filhos,
sacolas,
trabalho,
sonhos,
cansaços
e alguns mundos inteiros.
Tropeçaram.
Claro que tropeçaram.
Quem atravessa uma vida
sem tropeçar
provavelmente ficou sentado demais.
Hoje,
gosto de colocá-los para cima,
na varanda,
diante da manhã.
Eles já não têm pressa.
Têm marcas.
E talvez as marcas sejam
a caligrafia do tempo
escrevendo no corpo
a história que a memória
às vezes esquece.
Olho para meus pés
e penso:
vocês foram longe.
Muito mais longe
do que aquela menina descalça
poderia imaginar.
Agora descansem um pouco.
Ainda temos caminhos pela frente,
mas já aprendemos uma coisa:
nem toda viagem
precisa ser feita depressa.
Às vezes,
chegar até uma manhã tranquila,
erguer os pés na varanda
e contemplar o céu
também é
uma forma bonita
de ter chegado.
25 de agosto 2026
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