"Entre a varanda, a manhã e a vida que insiste em virar palavra"
Hoje escrevo assim.
Com os pés para o alto, a varanda aberta para o mundo e a cabeça cheia de histórias.
Não há escrivaninha elegante, silêncio de biblioteca nem ritual solene. Há uma rede, prédios ao fundo, palmeiras balançando, barulhos da cidade chegando de longe e uma mulher tentando transformar lembrança em palavra.
Gosto dessa fotografia porque ela não foi preparada.
Ela simplesmente aconteceu.
E talvez seja exatamente isso que mais se parece com a minha escrita de hoje.
Escrevo no meio da vida.
Entre uma lembrança e outra.
Entre um café e uma mensagem. Entre uma fotografia antiga e uma história que ainda não terminou dentro de mim.
Durante muitos anos, escrevi em cadernos.
Escrevi cartas para mim mesma. Escrevi para Deus. Escrevi para entender o que estava vivendo e, muitas vezes, apenas para não deixar que os dias desaparecessem sem registro.
Hoje continuo fazendo a mesma coisa.
Mudaram as ferramentas.
Mudou a paisagem.
Mudou a mulher.
Mas a necessidade de escrever continua ali.
Talvez até mais forte.
Porque chega um tempo em que a gente percebe que memória também precisa de casa.
E eu tenho tentado dar uma casa às minhas.
Helena Bernardes
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