quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Quando a inteligência artificial entra numa feira de livros

O que muda na literatura quando uma nova ferramenta se senta à mesa do escritor?

Durante muito tempo, escrever teve seus objetos quase sagrados.

Papel.
Lápis.
Caneta.

Depois veio a máquina de escrever, com aquele barulho que parecia anunciar cada frase ao mundo.

Vieram o computador, a internet, o celular.

E a literatura sobreviveu a todos eles.

Mais do que isso: apropriou-se deles
Agora chegou outra convidada.

A inteligência artificial.

E desta vez ela não ficou do lado de fora da porta.

A II Feira Literária de Goiás  FLIG 2026, realizada de 1º a 3 de setembro no Centro Cultural Martim Cererê, em Goiânia, colocou literatura, formação de leitores, literatura infantil, mundo digital e inteligência artificial dentro da mesma programação. A feira é promovida pelo Instituto Federal Goiano em parceria com instituições públicas de ensino e cultura. 

Achei isso especialmente simbólico.

Porque uma feira literária é justamente o território da palavra.

É onde escritores encontram leitores, livros encontram novas mãos e ideias antigas encontram novas interpretações.

E agora a inteligência artificial também entrou nessa conversa.

No dia 3, a programação traz a mesa “Literatura e mundo digital” e, em seguida, a palestra “Literatura e autoria em tempos de IA”, que pretende discutir desafios e possibilidades da inteligência artificial para a criação literária. 


Talvez a pergunta mais óbvia seja:

A inteligência artificial vai substituir o escritor?

Eu prefiro outra.

O que continuaremos chamando de autoria quando uma máquina puder nos ajudar a escrever?

Porque ferramenta e autor nunca foram a mesma coisa.

Uma caneta não escreveu um poema sozinha.

Uma máquina de escrever não inventou um personagem.

O corretor ortográfico não sentiu saudade.

O computador não teve infância.

E a inteligência artificial, por mais extraordinária que seja sua capacidade de trabalhar com palavras, também não viveu aquilo que o escritor viveu.

Ela não conhece o cheiro da casa onde crescemos.

Não teve uma mãe contando histórias.

Não guardou cadernos durante décadas.

Não viu uma nascente desaparecer.

Não sentiu vontade de transformar uma lembrança em personagem para que ela não morresse.

A experiência continua sendo humana.

Mas seria igualmente simplista fingir que nada mudou.

Mudou.

E muito.

Hoje um escritor pode conversar com uma ferramenta sobre estrutura, pesquisar caminhos, organizar ideias, revisar um texto, testar títulos e descobrir perguntas que talvez ainda não tivesse formulado.

Isso exige uma responsabilidade nova.

Não apenas saber escrever.

Mas saber o que pertence à nossa voz e o que estamos entregando à ferramenta.

Talvez o desafio dos escritores deste tempo não seja escolher entre o caderno e a inteligência artificial.

Talvez seja aprender a atravessar os dois mundos sem perder aquilo que nenhuma tecnologia deveria nos tomar:

a memória,

a imaginação,

a experiência,

a dúvida,

o espanto,

e aquela voz particular que faz alguém ler uma página e reconhecer:

“Isto foi escrito por essa pessoa.”

Por isso acho tão significativo ver uma feira literária colocando a questão sobre a mesa em vez de escondê-la.

Literatura sempre conversou com seu tempo.

Seria estranho se agora resolvesse fechar a janela.

A inteligência artificial entrou na feira do livro.

Que entre.

Que seja estudada.

Questionada.

Experimentada.

Criticada quando necessário.

Usada quando fizer sentido.

Mas que permaneça no lugar de ferramenta.

Porque, no fim, talvez a pergunta decisiva não seja se uma máquina consegue escrever.

A pergunta é outra:

Depois de tantas ferramentas novas, ainda teremos alguma coisa verdadeiramente nossa para contar?

Eu espero que sim.

Aliás, acredito que justamente por existirem tantas máquinas capazes de produzir palavras, ter alguma coisa verdadeira para dizer talvez se torne ainda mais precioso.

✍️ Helena Bernardes

Referência:

A programação oficial da FLIG confirma que a II Feira Literária de Goiás acontece de 1º a 3 de setembro de 2026, no Centro Cultural Martim Cererê, em Goiânia, com entrada gratuita. Amanhã, dia 3, estão previstas “Literatura e mundo digital”, das 15h30 às 16h30, e “Literatura e autoria em tempos de IA”, das 16h às 17h. 

E tem uma coincidência interessante: hoje à noite, na UFG, também haverá a roda “Escrita e Literatura em Tempos de IAs”, às 19h, dentro do Festival Flore-Ser. Ou seja, Goiânia está discutindo exatamente agora a relação entre escritores e IA em dois eventos diferentes. Isso, por si só, já daria outra crônica. 

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Cartas Não Escritas | Helena Bernardes


Agora também em canção

Há sentimentos que viram palavras.
Há palavras que viram cartas.
E há cartas que nunca chegam ao destino.

“Cartas Não Escritas” nasceu dos meus cadernos, das madrugadas de escrita e dessas palavras que tantas vezes ficam guardadas entre o papel e o coração.

Agora elas ganharam música e imagens. ✍️🎶

A letra é de Helena Bernardes, e a música foi criada com o auxílio do Suno AI.

Assista ao vídeo completo no YouTube:


E depois volte aqui para me contar: você já escreveu uma carta que nunca teve coragem de entregar? Há palavras que escrevemos e entregamos.

Outras ficam guardadas em cadernos, cartas, lembranças e silêncios.

“Cartas Não Escritas” nasceu desse lugar: das palavras caladas, dos sentimentos guardados e daquilo que, muitas vezes, o coração consegue dizer melhor quando encontra papel e caneta.

Neste vídeo, quis voltar ao ambiente dos meus antigos cadernos: a escrita à mão, a caneta Bic azul, a madrugada silenciosa e aquela intimidade que existe entre quem escreve e uma página ainda em branco.

Créditos:

✍️ Letra: Helena Bernardes
🎵 Música criada com auxílio do Suno AI

🎬 Concepção e criação visual: Helena Bernardes, com auxílio de inteligência artificial

Se esta canção trouxe alguma lembrança, conte nos comentários:
você também guarda alguma carta que nunca escreveu — ou que escreveu e nunca entregou?

O Pantanal começa antes do Pantanal — A água não sabe onde termina o Cerrado.”

O Pantanal começa antes do Pantanal

A água não sabe onde termina o Cerrado

Outro dia fiquei pensando numa coisa que parece simples:

Quando uma gota de chuva cai no Cerrado, será que ela sabe para onde está indo?

Acho que não.

A água não conhece as linhas que desenhamos nos mapas. Não sabe onde termina um município, começa outro estado ou muda o nome de um bioma.

Ela simplesmente segue.

Cai sobre uma folha.

Escorre pelo tronco.

Encontra a terra.

Parte se infiltra devagar, alimentando aquilo que nossos olhos não conseguem enxergar. Outra parte procura os caminhos mais baixos, encontra um fio d'água, depois um córrego, depois um rio.

E vai embora.

Mas não desaparece.

Eu moro no Cerrado e talvez por isso tenha aprendido a olhar para a água de outra maneira.

Por aqui, uma nascente pode parecer pequena para quem passa depressa. Às vezes é apenas um pedaço de chão úmido, escondido entre capins, pedras e raízes.

Mas nascente não se mede pelo tamanho.

Mede-se pelo caminho que sua água ainda fará.

O Cerrado alimenta grandes bacias hidrográficas brasileiras. E algumas de suas águas seguem justamente na direção do Pantanal.

É aí que nossa pequena gota deixa de ser apenas uma gota.

Ela encontra outras.

O córrego encontra outro córrego.

O rio recebe outros rios.

Até que aquela água que um dia tocou o chão do Cerrado passa a fazer parte de uma paisagem distante.

E então compreendemos uma coisa importante:

o Pantanal começa antes do Pantanal.

Começa também onde a água nasce.

Por isso não podemos pensar nos biomas brasileiros como se fossem cômodos separados de uma casa.

Aqui é Cerrado.

Ali é Pantanal.

Mais adiante, Amazônia.

Como se bastasse fechar uma porta e o problema de um não alcançasse o outro.

A natureza não construiu essas paredes.

Nós construímos.

Quando retiramos a vegetação de uma nascente, compactamos o solo, contaminamos um córrego ou alteramos profundamente uma região onde a água deveria encontrar abrigo e caminho, a consequência não necessariamente fica ali.

A água leva histórias.

E também leva consequências.

Talvez seja por isso que proteger uma pequena nascente seja um gesto muito maior do que parece.

Quem protege aquele primeiro fio d'água não está cuidando somente de alguns metros de terra molhada.

Está cuidando do córrego que ainda virá.

Do rio que o receberá.

Dos peixes.

Das aves.

Das árvores.

Dos animais que chegarão para beber.

E de pessoas que talvez vivam a centenas de quilômetros dali e nunca saibam onde aquela água começou.

Gosto de imaginar a Vovó Onça sentada à beira de uma nascente, explicando aos netinhos:

— Estão vendo esta aguinha?

Eles provavelmente olhariam sem entender por que a avó fazia tanto caso de uma quantidade tão pequena de água.

Então ela colocaria a pata perto da correnteza e diria:

— Não olhem apenas para onde ela está. Pensem em onde ela ainda vai chegar.

Talvez seja essa uma das lições mais bonitas que a natureza pode nos ensinar.

Tudo está ligado.

A árvore que permanece em pé.

A raiz que segura o solo.

A chuva que consegue penetrar na terra.

A nascente que resiste.

O córrego que corre.

O rio que continua.

O Pantanal que pulsa.

Nós gostamos de dividir o mundo para compreendê-lo.

A natureza prefere conectá-lo para continuar existindo.

Por isso, da próxima vez que você encontrar uma nascente no Cerrado, não veja apenas aquele pequeno começo.

Abaixe-se.

Escute.

Talvez diante de você esteja começando uma viagem muito maior do que seus olhos conseguem alcançar.

Porque a água não sabe onde termina o Cerrado.

E ainda bem.

E você: quando olha para uma pequena nascente, consegue imaginar até onde aquela água pode chegar — e quantas vidas dependem de ela continuar correndo?

✍️ Helena Bernardes


segunda-feira, 31 de agosto de 2026

🐆 A VOZ QUE HABITAVA HELENA BERNARDES

Quando até a Vovó Onça precisou emprestar o rugido

Tem gente que passa a vida inteira procurando a própria voz.

E tem gente que encontra uma onça de xale lilás no caminho.

Convenhamos: já é um começo bem mais interessante. 🐆

Numa noite em que até os grilos resolveram ficar quietos, a Vovó Onça chamou os netinhos para perto e avisou:

— Esta história não começa com “era uma vez”.

Pronto.

Nessa hora, até quem estava pensando em ir buscar café resolveu sentar.

Porque a história começava com um silêncio.

O silêncio de Helena Bernardes.

Dentro dela morava uma voz que queria sair, mas parecia não saber por onde.

Às vezes queria virar árvore.

Às vezes, rio.

Às vezes preferia ficar escondidinha, provavelmente esperando alguém aparecer com um manual de instruções.

Manual não apareceu.

Apareceu um rio quase sem água.

E rio, quando resolve fazer pergunta, não escolhe assunto fácil.

— Você também está sumindo?

Helena ficou quieta.

Mas a voz dentro dela se mexeu.

E respondeu:

— Estou procurando quem me ajude a falar.

Foi aí que a floresta inteira resolveu se meter no assunto.

Folha parou.

Bem-te-vi calou.

E até a onça-pintada mais antiga da mata levantou a cabeça.

Quem?

Ela mesma.

Vovó Onça.

Saiu de dentro daquela história, ajeitou os óculos, puxou o xale lilás e praticamente disse:

— Deixa comigo.

Mas fez uma ressalva importante:

— A voz continua sendo sua. Eu só estou emprestando o rugido.

E talvez seja justamente aí que mora a parte mais bonita dessa história.

A Vovó Onça nunca veio tomar o lugar de Helena.

Veio ajudar Helena a ocupar o lugar que já era dela.

Quando Helena escreve, é a Vovó quem aparece.

Quando a Vovó fala, é Helena quem sente.

Uma empresta o rugido.

A outra entrega a memória, o afeto, as histórias e aquele desejo insistente de lembrar às crianças:

cuidem da Terra.

No fim das contas, talvez encontrar a própria voz não seja aprender a falar mais alto.

Talvez seja simplesmente parar de fugir quando ela finalmente resolve aparecer.

E a Vovó Onça, que não perde oportunidade de dar sua opinião, já decidiu:

— Agora que encontramos essa voz, ninguém vai mandar ela ficar quieta, não.

A floresta que se prepare. 🐆🌿

E a próxima história?

Bem...

A Vovó deixou uma pista.

Parece que existe um rio querendo voltar a correr.

E quando rio e onça começam a conversar, é melhor a gente sentar perto.

A história provavelmente vai longe.

Helena Bernardes
31 de agosto de 2026

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

A ESCRITA ME ESPEROU




Autoria da letra: Helena Bernardes 

Uma canção sobre memórias guardadas em antigos cadernos e histórias que atravessam o tempo

Enquanto eu vivia outras histórias, as palavras continuavam guardando meu lugar.

Há momentos em que pensamos que nos afastamos da escrita.

Hoje percebo que comigo aconteceu outra coisa.

Eu estava vivendo.

Fui cuidar da vida, ser avó, contar histórias, criar personagens, guardar lembranças e seguir os caminhos que apareceram. Os cadernos ficaram ali, alguns fechados durante muitos anos.

E agora, ao reencontrar antigos manuscritos, cartas, poemas e anotações, tive uma sensação curiosa: a escrita não tinha ido embora.

Ela havia me esperado.

Talvez por isso tenha nascido esta canção.

“A Escrita Me Esperou” fala desse reencontro, não apenas com os cadernos, mas comigo mesma e com as muitas versões de mim que deixaram palavras pelo caminho.

Um dos versos resume exatamente o que senti:

“Enquanto pensei que estava longe dela,

era a vida escrevendo em mim.”


A tecnologia entrou nessa história agora, ajudando a transformar palavras em música. Mas a experiência que deu origem a elas pertence à vida.

E há algo bonito nisso.

Podemos fechar um caderno.

Podemos passar anos sem voltar a determinada página.

Podemos até acreditar que aquela parte de nós ficou para trás.

Mas algumas palavras sabem esperar.

A minha escrita esperou.

E eu voltei.

✍️ Helena Bernardes

Créditos da música — “A Escrita Me Esperou”

Letra: Helena Bernardes, com apoio de Bel (ChatGPT/OpenAI)

Música e interpretação geradas com inteligência artificial: Donna AI Song & Music Maker

Projeto e direção criativa: Helena Bernardes

© 2026 Helena Bernardes

Nota: a letra foi criada para este projeto autoral. A produção musical e a voz foram geradas por inteligência artificial por meio da plataforma Donna AI.

Deixe nos comentários 

E você? Existe alguma coisa que deixou de fazer durante anos e que, quando reencontrou, parecia ainda estar esperando por você?



TIA ONÇA E A CONVERSA DE PESCADOR

 


Naquela noite, a lua estava tão cheia que parecia ter descido do céu só para se olhar nas águas do rio.

Eu estava quieta na beira, vendo o reflexo dela balançar com a correnteza e conversando comigo mesma, costume antigo de quem anda muito pelo mato e aprendeu que silêncio também responde.

Foi quando apareceu um pescador.

Vinha devagar, carregando suas coisas e aquela tranquilidade de quem não precisa chegar depressa a lugar nenhum.

Parou perto de mim, olhou para o céu, olhou para o rio e perguntou:

— A senhora sabe ler sinal no céu?

Olhei para cima.

Estrelas não faltavam. Lua também não. Mas sinal, desses que pescador enxerga, eu não sabia ler nenhum.

— Não. Sei contar histórias para as estrelas. E até dizer a elas quem as criou.

Ele me olhou com aquela cara desconfiada de quem acabara de encontrar alguém capaz de contar uma história maior que a dele.

Ficamos em silêncio por alguns instantes.

Então ele começou.

Contou de um peixe enorme que quase tinha virado sua canoa.

Depois contou de outro, ainda maior, que escapara quando já estava praticamente dentro do barco.

O terceiro, pelo tamanho que ele descreveu, provavelmente não caberia nem no rio.

Foi aí que entendi uma coisa importante sobre pescadores:

o peixe que escapa continua crescendo pelo resto da vida.

Quanto mais os anos passam, maior ele fica.

Talvez seja por isso que pescador velho tenha tantas histórias e tão poucos peixes para apresentar como testemunha.

Eu não discuti.

Quem conta histórias para as estrelas não tem moral nenhuma para exigir provas de quem conversa com peixes.

Despedi-me dele e continuei meu caminho.

A lua permanecia no rio.

As estrelas continuavam no céu.

E eu levei comigo uma aprendizagem daquela noite:

há histórias que precisam ser verdadeiras.

E há outras que só precisam ser bem contadas.

Desde então, quando encontro pescador na beira de rio, escuto tudo com muita atenção.

Só tomo um pequeno cuidado:

nunca pergunto o tamanho do peixe.

Nota da autora:

Esta crônica nasceu de um pequeno texto que escrevi em outubro de 2021 e publiquei no Recanto das Letras em 1º de janeiro de 2022, com o título Tia Onça e o Pescador. Naquele tempo, ela ainda era Tia Onça, aventureira, fotógrafa, companheira de Shake e andarilha das matas. Anos depois, reencontrei aquelas poucas linhas e percebi que havia uma crônica inteira escondida dentro delas.

Texto original: Tia Onça e o Pescador — outubro de 2021.

Nova versão: Helena Bernardes — agosto de 2026.

Helena Bernardes

COMO NASCEU A VOVÓ ONÇA

 


Da mulher bicho do mato à personagem que encontrou nas crianças uma nova maneira de falar sobre a natureza

Antes de ser Vovó Onça, eu já rondava a vida de Helena Bernardes sem que ela percebesse.

Durante a semana, Helena trabalhava vendendo pneus. Estradas, clientes, viagens e aquela rotina corrida de quem precisava ganhar a vida.

Mas chegava o fim de semana e o cenário mudava.

Ela ia para uma chácara em Anápolis, próxima às nascentes do Rio Piracanjuba. Ali, trocava o movimento das estradas pelo silêncio da mata.

De manhã cedo, pegava a câmera fotográfica e saía para caminhar.

Fotografava árvores, flores, orquídeas, animais, nascentes e tudo aquilo que encontrava pelo caminho. Muitas vezes, Shake, seu cachorro preto, acompanhava aquelas pequenas expedições.

Os sobrinhos começaram a brincar com aquele jeito dela de desaparecer pelo mato e lhe deram um apelido:

“Mulher bicho do mato.”

Depois veio outro:

Tia Onça.

Mal sabiam eles que estavam ajudando a batizar uma personagem que ainda levaria alguns anos para nascer.

De Tia Onça a Vovó Onça

O tempo passou.

Então chegaram JPzinho e Leia.

Helena virou avó.

E convenhamos: se a Tia Onça agora era avó, o destino do nome estava praticamente resolvido.

Nasceu a Vovó Onça.

Com os netos vieram as histórias. Depois chegaram outros personagens, florestas imaginárias, animais falantes, nascentes que precisavam ser protegidas e aventuras criadas para conversar com as crianças sobre o cuidado com o planeta.

A mulher que durante tantos anos observara a natureza percebeu que poderia transformá-la em literatura.

E eu fui ficando.

Deixei de ser apenas um apelido e virei personagem.

Mas a Vovó Onça não tinha cabelo!

Não tinha mesmo.

Quando apareci nas primeiras histórias, eu era uma onça-pintada idosa, com minhas pintinhas, meus óculos redondos e meu inseparável xale lilás.

Nada de cabelo humano.

Só que personagens também envelhecem, mudam e acompanham a história de quem os criou.

Quando cheguei aos 70 anos, ganhei uma novidade: cabelos humanos, curtos e grisalhos, inspirados nos cabelos de Helena.

Portanto, se você encontrar por este blog imagens antigas de uma Vovó Onça sem cabelo e, nas mais recentes, uma onça grisalha toda faceira, não estranhe.

Sou eu mesma.

Não troquei de personagem.

Só fui ao cabeleireiro. 😄

Afinal quando nasceu a Vovó Onça?

Essa é a pergunta mais difícil.

Talvez eu tenha nascido quando Helena entrou pela primeira vez no mato levando uma câmera.

Talvez quando alguém a chamou de Tia Onça.

Talvez quando chegaram os netos.

Ou talvez eu sempre estivesse por ali, escondida entre uma nascente, uma fotografia, uma estrada e um caderno esperando a hora certa de aparecer.

Hoje sei a resposta que prefiro:

Eu não cheguei de repente à vida de Helena Bernardes. Eu já morava nela.

Só precisei de duas crianças para ganhar o nome de Vovó.

🐆 Vovó Onça

Personagem criada por Helena Bernardes, nascida das memórias, da natureza, da educação ambiental e das histórias contadas às crianças.

© Helena Bernardes — Todos os direitos reservados.

Minha mãe não tinha audiobook. Tinha voz.

Da tradição oral ao celular, algumas histórias apenas mudaram de caminho.

Minha mãe, Adoniria, a nossa Vovó  Preta, não sabia ler nem escrever.

Mas sabia contar histórias.

Foi minha primeira contadora de histórias, talvez, sem que nenhuma de nós soubesse, minha primeira professora de literatura.

Ela contava histórias por capítulos.

Isso mesmo: capítulos.

Não estavam escritos em caderno algum. Não havia livro aberto sobre o colo, marcador de página ou anotação para lembrar onde havia parado. A história morava inteira na memória dela.

A cada dia, vinha um pedaço.
E depois acabava.

Era preciso esperar o dia seguinte.

Hoje chamariam isso de estratégia narrativa.

Suspense. 
Gancho para o próximo episódio. 

Uma maneira eficiente de manter o público interessado.

Vovó Preta simplesmente dizia:

— Amanhã eu continuo.

E pronto.

Nós ficávamos esperando.

Talvez por isso eu ache curioso quando tratamos o audiobook, o podcast e tantas outras formas de narrativa em áudio como grandes invenções do nosso tempo.

A tecnologia é nova.

O costume, não.

Muito antes de alguém apertar o play, histórias já atravessavam gerações pela voz. Antes das telas, dos aplicativos e dos fones de ouvido, havia gente sentada perto de gente, contando o que lembrava, inventando o que faltava e guardando na memória aquilo que não podia guardar no papel.

Minha mãe era analfabeta.

Durante muito tempo essa palavra serviu para dizer aquilo que uma pessoa não sabia fazer.

Hoje, quando penso nela, prefiro lembrar tudo aquilo que ela sabia.

Sabia criar expectativa.

Sabia guardar personagens.

Sabia continuar uma história no dia seguinte.

Sabia fazer uma criança imaginar lugares que nunca tinha visto.

E sabia uma coisa que nenhum aplicativo inventou:

fazer da própria voz um lugar onde os outros podiam entrar.

Décadas depois, aqui estou eu.

Escrevo no celular, converso com inteligência artificial, publico na internet, transformo histórias em áudio e vejo livros inteiros caberem dentro de um aparelho que seguramos na palma da mão.
Parece que fomos muito longe.

E fomos.

Mas, quando alguém coloca os fones de ouvido e fecha os olhos para escutar uma história, penso que talvez estejamos fazendo uma viagem de volta.

Do audiobook à voz.

Do digital à roda de histórias.

Da tecnologia à memória.

Talvez as máquinas não tenham inventado uma nova maneira de contar.

Talvez tenham apenas construído uma estrada nova para uma coisa antiquíssima:
 uma pessoa contando e outra querendo saber o que acontece depois.

E, se hoje sou escritora, gosto de pensar que minha história com as palavras começou antes mesmo de eu perceber a importância delas.

Começou ouvindo uma mulher que não sabia escrever.

Minha mãe não tinha audiobook.

Tinha voz.

E eu tinha o privilégio de esperar pelo capítulo de amanhã.

Helena Bernardes
27 de agosto 2026 

Quem eu era quando comecei a escrever




Quando comecei a escrever, eu já trabalhava com crianças, em escolinha infantil. 

Talvez por isso as histórias e os personagens tenham encontrado terreno tão fértil em mim: eu convivia diariamente com imaginação, brincadeira, descoberta e aquele jeito muito próprio que a infância tem de transformar qualquer coisa em mundo.

Também havia as festas, as quadrilhas e os personagens que inventávamos para brincar. 

Em uma delas, eu fazia um personagem masculino "Tonhão " e meu par era Tonha Taca. 

Era só parte da diversão, da encenação, daquele tempo em que a gente se permitia criar tipos, vozes e histórias sem pensar demais no nome disso.

Hoje vejo que muita coisa começou ali.

Antes dos livros, antes dos projetos e antes de personagens ganharem vida no papel, já existia em mim essa vontade de observar, inventar, representar e contar.

A escrita veio depois, mas a imaginação já estava trabalhando fazia tempo.

Helena Bernardes

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

📚 A PALAVRA CONTINUA

 Três livros que nasceram separados e que, ao colocá-los lado a lado, percebi que pertenciam à mesma família:

📖 Entre o Chão e o Céu

📖 As Vozes do Tempo

📖 Tapera Assombrada


Os três estão concluídos em edição digital e agora passam a integrar a Coleção A Palavra Continua.

Terra, memória, casa e tempo atravessam essas obras de maneiras diferentes. No fundo, porém, todas falam daquilo que permanece quando os anos passam.

A palavra guarda.

A palavra atravessa o tempo.

A palavra continua.

Nos próximos dias, pretendo apresentar um pouco de cada obra por aqui.

✍️ Helena Bernardes

E começo com uma pergunta:

Qual desses três títulos despertaria primeiro a sua curiosidade?