O corpo foi o primeiro a lembrar.
Antes da memória organizada, antes das palavras certas, antes da confiança, foi o corpo que respondeu. Um convite simples. Um campo conhecido. Gente que não exigia explicação. Apenas presença.
Ele foi. Sem expectativa. Sem promessa.
O gramado tinha o mesmo cheiro de antes. A mesma irregularidade sob os pés. O corpo reconheceu o espaço antes que a cabeça tivesse tempo de duvidar. O aquecimento veio automático. O gesto antigo reapareceu sem esforço. Correr ainda fazia sentido.
Não era competição. Não havia placar. Não havia cobrança. Era apenas movimento. Amigos antigos. Risadas curtas. O filho por perto, observando sem saber exatamente o que procurar.
Ali, ele não era advogado.
Não era paciente.
Não era diagnóstico.
Era só alguém ocupando o próprio corpo outra vez.
Voltou outras vezes. Sempre com cuidado. Sempre respeitando limites que antes não existiam. O cansaço vinha mais rápido. A concentração falhava. Mas o pertencimento permanecia.
Foi nesse espaço que decidiram fazer algo por ele. Não como prêmio. Como reconhecimento. Uma homenagem simples, pensada mais como gesto do que como espetáculo.
No dia marcado, ele chegou sem saber exatamente o que ia acontecer. O campo estava cheio. Pessoas que ele conhecia de diferentes fases da vida. Outras que conheciam apenas parte da história.
O telão foi ligado.
O nome apareceu primeiro. Depois imagens. Palavras escolhidas com cuidado. Não falaram da queda. Não falaram da doença. Falaram do homem. Do que tinha sido. Do que ainda era.
Ele assistiu em silêncio. Não chorou. Não sorriu demais. Apenas ficou ali, absorvendo algo que não sabia se merecia, mas que precisava receber.
Ser visto daquele jeito devolveu alguma coisa que ele não sabia que tinha perdido.
Não resolveu nada.
Mas sustentou.
Depois disso, a vida seguiu no mesmo ritmo possível. Trabalho simples. Dias repetidos. Filhos mais próximos. Conversas sem urgência. A memória continuava irregular. Algumas falhas nunca se corrigiram.
Foi então que ela apareceu.
A enfermeira não entrou como promessa. Entrou como espelho. Conversaram sem pressa. Descobriram, em algum momento, o ponto em comum. O mesmo tipo de tumor. O mesmo lugar da cabeça. As mesmas dificuldades.
Não precisaram explicar muito. O reconhecimento foi imediato.
Ela entendia os esquecimentos. Ele entendia os silêncios. Não havia heroísmo ali. Havia convivência.
Dois corpos remendados.
Duas histórias fora do roteiro.
Ele não voltou a ser quem foi.
Mas deixou de tentar.
Aprendeu a viver como quem caminha em terreno irregular: atento, devagar, presente. Algumas memórias voltavam. Outras ficavam para sempre ausentes. A identidade já não cabia em um título profissional ou em um passado de sucesso.
Era outra coisa agora.
Um homem possível.
Ele acorda cedo. Não por hábito antigo, mas porque o corpo pede. A casa ainda está quieta. A luz entra baixa, sem pressa, desenhando sombras que ele não tenta mais decifrar.
Prepara o café com cuidado excessivo. Mede a água. Espera ferver. Às vezes esquece se já colocou o pó. Confere. Recomeça. Não se irrita.
Sentado à mesa, observa as próprias mãos. Reconhece nelas algo que não depende da memória. Estão ali. Funcionam. Sustentam.
Do lado de fora, o dia acontece como sempre aconteceu. Pessoas passam. Um ônibus freia. Um cachorro late. Nada anuncia importância. Nada exige resposta.
Ele pensa nos filhos. Não em culpa. Não em ausência. Pensa neles como quem aceita continuidade. Eles existem. Ele existe para eles, do jeito que consegue.
Levanta. Veste o casaco pendurado atrás da porta. O mesmo de sempre. Ajusta a gola sem olhar no espelho. Não precisa confirmar quem é.
Antes de sair, para por um instante. A mão na maçaneta. Um segundo coincidente com nada. Não lembra exatamente do que esqueceu. Também não procura.
Abre a porta.
O mundo não devolveu o que tirou.
Mas deixou espaço suficiente para ficar.
Ele atravessa.
Helena Bernardes
Histórias que a Vida Conta
Janeiro 2026
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