Mostrando postagens com marcador CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Minha mãe não tinha audiobook. Tinha voz.

Da tradição oral ao celular, algumas histórias apenas mudaram de caminho.

Minha mãe, Adoniria, a nossa Vovó  Preta, não sabia ler nem escrever.

Mas sabia contar histórias.

Foi minha primeira contadora de histórias, talvez, sem que nenhuma de nós soubesse, minha primeira professora de literatura.

Ela contava histórias por capítulos.

Isso mesmo: capítulos.

Não estavam escritos em caderno algum. Não havia livro aberto sobre o colo, marcador de página ou anotação para lembrar onde havia parado. A história morava inteira na memória dela.

A cada dia, vinha um pedaço.
E depois acabava.

Era preciso esperar o dia seguinte.

Hoje chamariam isso de estratégia narrativa.

Suspense. 
Gancho para o próximo episódio. 

Uma maneira eficiente de manter o público interessado.

Vovó Preta simplesmente dizia:

— Amanhã eu continuo.

E pronto.

Nós ficávamos esperando.

Talvez por isso eu ache curioso quando tratamos o audiobook, o podcast e tantas outras formas de narrativa em áudio como grandes invenções do nosso tempo.

A tecnologia é nova.

O costume, não.

Muito antes de alguém apertar o play, histórias já atravessavam gerações pela voz. Antes das telas, dos aplicativos e dos fones de ouvido, havia gente sentada perto de gente, contando o que lembrava, inventando o que faltava e guardando na memória aquilo que não podia guardar no papel.

Minha mãe era analfabeta.

Durante muito tempo essa palavra serviu para dizer aquilo que uma pessoa não sabia fazer.

Hoje, quando penso nela, prefiro lembrar tudo aquilo que ela sabia.

Sabia criar expectativa.

Sabia guardar personagens.

Sabia continuar uma história no dia seguinte.

Sabia fazer uma criança imaginar lugares que nunca tinha visto.

E sabia uma coisa que nenhum aplicativo inventou:

fazer da própria voz um lugar onde os outros podiam entrar.

Décadas depois, aqui estou eu.

Escrevo no celular, converso com inteligência artificial, publico na internet, transformo histórias em áudio e vejo livros inteiros caberem dentro de um aparelho que seguramos na palma da mão.
Parece que fomos muito longe.

E fomos.

Mas, quando alguém coloca os fones de ouvido e fecha os olhos para escutar uma história, penso que talvez estejamos fazendo uma viagem de volta.

Do audiobook à voz.

Do digital à roda de histórias.

Da tecnologia à memória.

Talvez as máquinas não tenham inventado uma nova maneira de contar.

Talvez tenham apenas construído uma estrada nova para uma coisa antiquíssima:
 uma pessoa contando e outra querendo saber o que acontece depois.

E, se hoje sou escritora, gosto de pensar que minha história com as palavras começou antes mesmo de eu perceber a importância delas.

Começou ouvindo uma mulher que não sabia escrever.

Minha mãe não tinha audiobook.

Tinha voz.

E eu tinha o privilégio de esperar pelo capítulo de amanhã.

Helena Bernardes
27 de agosto 2026