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quinta-feira, 27 de agosto de 2026

TIA ONÇA E A CONVERSA DE PESCADOR

 


Naquela noite, a lua estava tão cheia que parecia ter descido do céu só para se olhar nas águas do rio.

Eu estava quieta na beira, vendo o reflexo dela balançar com a correnteza e conversando comigo mesma, costume antigo de quem anda muito pelo mato e aprendeu que silêncio também responde.

Foi quando apareceu um pescador.

Vinha devagar, carregando suas coisas e aquela tranquilidade de quem não precisa chegar depressa a lugar nenhum.

Parou perto de mim, olhou para o céu, olhou para o rio e perguntou:

— A senhora sabe ler sinal no céu?

Olhei para cima.

Estrelas não faltavam. Lua também não. Mas sinal, desses que pescador enxerga, eu não sabia ler nenhum.

— Não. Sei contar histórias para as estrelas. E até dizer a elas quem as criou.

Ele me olhou com aquela cara desconfiada de quem acabara de encontrar alguém capaz de contar uma história maior que a dele.

Ficamos em silêncio por alguns instantes.

Então ele começou.

Contou de um peixe enorme que quase tinha virado sua canoa.

Depois contou de outro, ainda maior, que escapara quando já estava praticamente dentro do barco.

O terceiro, pelo tamanho que ele descreveu, provavelmente não caberia nem no rio.

Foi aí que entendi uma coisa importante sobre pescadores:

o peixe que escapa continua crescendo pelo resto da vida.

Quanto mais os anos passam, maior ele fica.

Talvez seja por isso que pescador velho tenha tantas histórias e tão poucos peixes para apresentar como testemunha.

Eu não discuti.

Quem conta histórias para as estrelas não tem moral nenhuma para exigir provas de quem conversa com peixes.

Despedi-me dele e continuei meu caminho.

A lua permanecia no rio.

As estrelas continuavam no céu.

E eu levei comigo uma aprendizagem daquela noite:

há histórias que precisam ser verdadeiras.

E há outras que só precisam ser bem contadas.

Desde então, quando encontro pescador na beira de rio, escuto tudo com muita atenção.

Só tomo um pequeno cuidado:

nunca pergunto o tamanho do peixe.

Nota da autora:

Esta crônica nasceu de um pequeno texto que escrevi em outubro de 2021 e publiquei no Recanto das Letras em 1º de janeiro de 2022, com o título Tia Onça e o Pescador. Naquele tempo, ela ainda era Tia Onça, aventureira, fotógrafa, companheira de Shake e andarilha das matas. Anos depois, reencontrei aquelas poucas linhas e percebi que havia uma crônica inteira escondida dentro delas.

Texto original: Tia Onça e o Pescador — outubro de 2021.

Nova versão: Helena Bernardes — agosto de 2026.

Helena Bernardes