segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Quando a floresta vira leitura

Dois livros nasceram do mesmo silêncio e da mesma escuta.

Um fala do tempo.
O outro, da floresta que vive dentro de nós.

Se você caminha com cuidado, talvez eles caminhem com você.



Amanhecer

O dia não bateu à porta.
Ele cantou.

Acordei com o bem-te-vi na janela, voz firme, repetida,
como quem sabe exatamente
a hora de chamar o mundo de volta.

Não estava sozinho.
Das árvores do jardim veio um coral inteiro, pássaros conversando entre si,
afinados no mesmo instante,
me dando bom dia
sem precisar de palavra humana.

Fiquei quieta.
Aprendi faz tempo que certos despertares pedem escuta antes de resposta.

A manhã se anunciou assim:
com canto, com folha mexendo devagar, com a certeza simples de que a vida continua mesmo quando a gente dorme.

O bem-te-vi insistiu.
Não por urgência.
Por constância.

Levantei agradecendo.
Há dias que começam com café.
Outros começam com bênção.

Hoje foi assim.

Helena Bernardes
Histórias que a vida conta
Amanhecer, 27 janeiro 2026 

Hoje


Hoje não aconteceu nada extraordinário.
E isso já foi muito.

O dia passou com seus ruídos comuns, seus pequenos atrasos, suas tarefas que parecem repetir mas nunca são iguais.

Escrevo porque aprendi que o hoje não se guarda sozinho.

Se a gente não anota, ele escapa pelas frestas como água em mão aberta.

Hoje houve pensamento solto,
um olhar demorado, uma vontade de ficar quieta sem precisar explicar.

A vida não fez discurso.
Só passou.
E eu, que já aprendi a escutar,
anotei.

Helena Bernardes
Histórias que a vida conta
Hoje

Quando a Luz Atravessa a Mata

Não era fogo.
Era memória derretida.

As velas haviam cumprido o que sabiam fazer:
queimar pedidos,
sustentar silêncios,
abrir caminho.

Da cera escorrida nasceu um arco, não de pedra, não de ferro, mas de fé cansada que não desistiu.

Dentro dele, a luz não feria os olhos.
Ela acolhia.

A presença não se mostrava inteira..Era contorno, sombra viva, movimento antigo entre folhas.

O arco e a flecha não apontavam para fora.
Apontavam para dentro.

Oxóssi não atravessa portais à toa. Ele vem quando a mata é respeitada, quando o pedido é justo e quando o coração aprende a esperar.

O lago, ao longe, guardava o reflexo. A lua vigiava.
Três estrelas alinhadas lembravam que há mistérios que caminham juntos
e não precisam de nome alto.

Nada ali era nítido.
Porque o sagrado não grita.
Ele se revela em névoa,
em luz difusa, em presença que passa e deixa o mundo mais inteiro.

Quem viu, sentiu.
Quem sentiu, entendeu.

Histórias que a vida conta
Helena Bernardes 
Mês de Oxossi 

Ontem


Ontem foi dia de organizar.
Não a casa apenas — o mundo.

As linhas de crochê pediam ordem:
cores conversando entre si,
novelos desatando antigos nós, paciência em forma de fio.

Depois vieram as pastas de documentos.
Papéis que contam quem fui,
quem sou, e o que ainda preciso guardar para não esquecer de mim.

As gavetas se abriram como confidências.
Algumas guardavam excessos, outras só silêncio.

Tudo precisou de lugar,
até o que já não servia.

Livros voltaram às estantes
com aquele peso bom de quem espera.
Cadernos de anotações se deixaram folhear, lembrando que muita coisa foi pensada
antes de ser escrita.

Não foi um dia barulhento.
Foi um dia necessário.

Organizar o que é meu
sempre foi meu jeito de acalmar o mundo.

Quando tudo encontra seu lugar, eu também encontro o meu.

Helena Bernardes
Histórias que a vida conta
Ontem

Helena Bernardes "Palavras em Todos os Cantos"

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Raízes da Minha Escrita

🐂 Hoje é Dia do Carreiro de Boi em Goiás

Para muita gente, é uma data no calendário. Para mim, é uma história que vem de longe. O carro de boi atravessa as memórias da minha família...