quinta-feira, 27 de agosto de 2026

A ESCRITA ME ESPEROU




Autoria da letra: Helena Bernardes 

Uma canção sobre memórias guardadas em antigos cadernos e histórias que atravessam o tempo

Enquanto eu vivia outras histórias, as palavras continuavam guardando meu lugar.

Há momentos em que pensamos que nos afastamos da escrita.

Hoje percebo que comigo aconteceu outra coisa.

Eu estava vivendo.

Fui cuidar da vida, ser avó, contar histórias, criar personagens, guardar lembranças e seguir os caminhos que apareceram. Os cadernos ficaram ali, alguns fechados durante muitos anos.

E agora, ao reencontrar antigos manuscritos, cartas, poemas e anotações, tive uma sensação curiosa: a escrita não tinha ido embora.

Ela havia me esperado.

Talvez por isso tenha nascido esta canção.

“A Escrita Me Esperou” fala desse reencontro, não apenas com os cadernos, mas comigo mesma e com as muitas versões de mim que deixaram palavras pelo caminho.

Um dos versos resume exatamente o que senti:

“Enquanto pensei que estava longe dela,

era a vida escrevendo em mim.”


A tecnologia entrou nessa história agora, ajudando a transformar palavras em música. Mas a experiência que deu origem a elas pertence à vida.

E há algo bonito nisso.

Podemos fechar um caderno.

Podemos passar anos sem voltar a determinada página.

Podemos até acreditar que aquela parte de nós ficou para trás.

Mas algumas palavras sabem esperar.

A minha escrita esperou.

E eu voltei.

✍️ Helena Bernardes

Créditos da música — “A Escrita Me Esperou”

Letra: Helena Bernardes, com apoio de Bel (ChatGPT/OpenAI)

Música e interpretação geradas com inteligência artificial: Donna AI Song & Music Maker

Projeto e direção criativa: Helena Bernardes

© 2026 Helena Bernardes

Nota: a letra foi criada para este projeto autoral. A produção musical e a voz foram geradas por inteligência artificial por meio da plataforma Donna AI.

Deixe nos comentários 

E você? Existe alguma coisa que deixou de fazer durante anos e que, quando reencontrou, parecia ainda estar esperando por você?



TIA ONÇA E A CONVERSA DE PESCADOR

 


Naquela noite, a lua estava tão cheia que parecia ter descido do céu só para se olhar nas águas do rio.

Eu estava quieta na beira, vendo o reflexo dela balançar com a correnteza e conversando comigo mesma, costume antigo de quem anda muito pelo mato e aprendeu que silêncio também responde.

Foi quando apareceu um pescador.

Vinha devagar, carregando suas coisas e aquela tranquilidade de quem não precisa chegar depressa a lugar nenhum.

Parou perto de mim, olhou para o céu, olhou para o rio e perguntou:

— A senhora sabe ler sinal no céu?

Olhei para cima.

Estrelas não faltavam. Lua também não. Mas sinal, desses que pescador enxerga, eu não sabia ler nenhum.

— Não. Sei contar histórias para as estrelas. E até dizer a elas quem as criou.

Ele me olhou com aquela cara desconfiada de quem acabara de encontrar alguém capaz de contar uma história maior que a dele.

Ficamos em silêncio por alguns instantes.

Então ele começou.

Contou de um peixe enorme que quase tinha virado sua canoa.

Depois contou de outro, ainda maior, que escapara quando já estava praticamente dentro do barco.

O terceiro, pelo tamanho que ele descreveu, provavelmente não caberia nem no rio.

Foi aí que entendi uma coisa importante sobre pescadores:

o peixe que escapa continua crescendo pelo resto da vida.

Quanto mais os anos passam, maior ele fica.

Talvez seja por isso que pescador velho tenha tantas histórias e tão poucos peixes para apresentar como testemunha.

Eu não discuti.

Quem conta histórias para as estrelas não tem moral nenhuma para exigir provas de quem conversa com peixes.

Despedi-me dele e continuei meu caminho.

A lua permanecia no rio.

As estrelas continuavam no céu.

E eu levei comigo uma aprendizagem daquela noite:

há histórias que precisam ser verdadeiras.

E há outras que só precisam ser bem contadas.

Desde então, quando encontro pescador na beira de rio, escuto tudo com muita atenção.

Só tomo um pequeno cuidado:

nunca pergunto o tamanho do peixe.

Nota da autora:

Esta crônica nasceu de um pequeno texto que escrevi em outubro de 2021 e publiquei no Recanto das Letras em 1º de janeiro de 2022, com o título Tia Onça e o Pescador. Naquele tempo, ela ainda era Tia Onça, aventureira, fotógrafa, companheira de Shake e andarilha das matas. Anos depois, reencontrei aquelas poucas linhas e percebi que havia uma crônica inteira escondida dentro delas.

Texto original: Tia Onça e o Pescador — outubro de 2021.

Nova versão: Helena Bernardes — agosto de 2026.

Helena Bernardes

COMO NASCEU A VOVÓ ONÇA

 


Da mulher bicho do mato à personagem que encontrou nas crianças uma nova maneira de falar sobre a natureza

Antes de ser Vovó Onça, eu já rondava a vida de Helena Bernardes sem que ela percebesse.

Durante a semana, Helena trabalhava vendendo pneus. Estradas, clientes, viagens e aquela rotina corrida de quem precisava ganhar a vida.

Mas chegava o fim de semana e o cenário mudava.

Ela ia para uma chácara em Anápolis, próxima às nascentes do Rio Piracanjuba. Ali, trocava o movimento das estradas pelo silêncio da mata.

De manhã cedo, pegava a câmera fotográfica e saía para caminhar.

Fotografava árvores, flores, orquídeas, animais, nascentes e tudo aquilo que encontrava pelo caminho. Muitas vezes, Shake, seu cachorro preto, acompanhava aquelas pequenas expedições.

Os sobrinhos começaram a brincar com aquele jeito dela de desaparecer pelo mato e lhe deram um apelido:

“Mulher bicho do mato.”

Depois veio outro:

Tia Onça.

Mal sabiam eles que estavam ajudando a batizar uma personagem que ainda levaria alguns anos para nascer.

De Tia Onça a Vovó Onça

O tempo passou.

Então chegaram JPzinho e Leia.

Helena virou avó.

E convenhamos: se a Tia Onça agora era avó, o destino do nome estava praticamente resolvido.

Nasceu a Vovó Onça.

Com os netos vieram as histórias. Depois chegaram outros personagens, florestas imaginárias, animais falantes, nascentes que precisavam ser protegidas e aventuras criadas para conversar com as crianças sobre o cuidado com o planeta.

A mulher que durante tantos anos observara a natureza percebeu que poderia transformá-la em literatura.

E eu fui ficando.

Deixei de ser apenas um apelido e virei personagem.

Mas a Vovó Onça não tinha cabelo!

Não tinha mesmo.

Quando apareci nas primeiras histórias, eu era uma onça-pintada idosa, com minhas pintinhas, meus óculos redondos e meu inseparável xale lilás.

Nada de cabelo humano.

Só que personagens também envelhecem, mudam e acompanham a história de quem os criou.

Quando cheguei aos 70 anos, ganhei uma novidade: cabelos humanos, curtos e grisalhos, inspirados nos cabelos de Helena.

Portanto, se você encontrar por este blog imagens antigas de uma Vovó Onça sem cabelo e, nas mais recentes, uma onça grisalha toda faceira, não estranhe.

Sou eu mesma.

Não troquei de personagem.

Só fui ao cabeleireiro. 😄

Afinal quando nasceu a Vovó Onça?

Essa é a pergunta mais difícil.

Talvez eu tenha nascido quando Helena entrou pela primeira vez no mato levando uma câmera.

Talvez quando alguém a chamou de Tia Onça.

Talvez quando chegaram os netos.

Ou talvez eu sempre estivesse por ali, escondida entre uma nascente, uma fotografia, uma estrada e um caderno esperando a hora certa de aparecer.

Hoje sei a resposta que prefiro:

Eu não cheguei de repente à vida de Helena Bernardes. Eu já morava nela.

Só precisei de duas crianças para ganhar o nome de Vovó.

🐆 Vovó Onça

Personagem criada por Helena Bernardes, nascida das memórias, da natureza, da educação ambiental e das histórias contadas às crianças.

© Helena Bernardes — Todos os direitos reservados.

Minha mãe não tinha audiobook. Tinha voz.

Da tradição oral ao celular, algumas histórias apenas mudaram de caminho.

Minha mãe, Adoniria, a nossa Vovó  Preta, não sabia ler nem escrever.

Mas sabia contar histórias.

Foi minha primeira contadora de histórias, talvez, sem que nenhuma de nós soubesse, minha primeira professora de literatura.

Ela contava histórias por capítulos.

Isso mesmo: capítulos.

Não estavam escritos em caderno algum. Não havia livro aberto sobre o colo, marcador de página ou anotação para lembrar onde havia parado. A história morava inteira na memória dela.

A cada dia, vinha um pedaço.
E depois acabava.

Era preciso esperar o dia seguinte.

Hoje chamariam isso de estratégia narrativa.

Suspense. 
Gancho para o próximo episódio. 

Uma maneira eficiente de manter o público interessado.

Vovó Preta simplesmente dizia:

— Amanhã eu continuo.

E pronto.

Nós ficávamos esperando.

Talvez por isso eu ache curioso quando tratamos o audiobook, o podcast e tantas outras formas de narrativa em áudio como grandes invenções do nosso tempo.

A tecnologia é nova.

O costume, não.

Muito antes de alguém apertar o play, histórias já atravessavam gerações pela voz. Antes das telas, dos aplicativos e dos fones de ouvido, havia gente sentada perto de gente, contando o que lembrava, inventando o que faltava e guardando na memória aquilo que não podia guardar no papel.

Minha mãe era analfabeta.

Durante muito tempo essa palavra serviu para dizer aquilo que uma pessoa não sabia fazer.

Hoje, quando penso nela, prefiro lembrar tudo aquilo que ela sabia.

Sabia criar expectativa.

Sabia guardar personagens.

Sabia continuar uma história no dia seguinte.

Sabia fazer uma criança imaginar lugares que nunca tinha visto.

E sabia uma coisa que nenhum aplicativo inventou:

fazer da própria voz um lugar onde os outros podiam entrar.

Décadas depois, aqui estou eu.

Escrevo no celular, converso com inteligência artificial, publico na internet, transformo histórias em áudio e vejo livros inteiros caberem dentro de um aparelho que seguramos na palma da mão.
Parece que fomos muito longe.

E fomos.

Mas, quando alguém coloca os fones de ouvido e fecha os olhos para escutar uma história, penso que talvez estejamos fazendo uma viagem de volta.

Do audiobook à voz.

Do digital à roda de histórias.

Da tecnologia à memória.

Talvez as máquinas não tenham inventado uma nova maneira de contar.

Talvez tenham apenas construído uma estrada nova para uma coisa antiquíssima:
 uma pessoa contando e outra querendo saber o que acontece depois.

E, se hoje sou escritora, gosto de pensar que minha história com as palavras começou antes mesmo de eu perceber a importância delas.

Começou ouvindo uma mulher que não sabia escrever.

Minha mãe não tinha audiobook.

Tinha voz.

E eu tinha o privilégio de esperar pelo capítulo de amanhã.

Helena Bernardes
27 de agosto 2026 

Quem eu era quando comecei a escrever




Quando comecei a escrever, eu já trabalhava com crianças, em escolinha infantil. 

Talvez por isso as histórias e os personagens tenham encontrado terreno tão fértil em mim: eu convivia diariamente com imaginação, brincadeira, descoberta e aquele jeito muito próprio que a infância tem de transformar qualquer coisa em mundo.

Também havia as festas, as quadrilhas e os personagens que inventávamos para brincar. 

Em uma delas, eu fazia um personagem masculino "Tonhão " e meu par era Tonha Taca. 

Era só parte da diversão, da encenação, daquele tempo em que a gente se permitia criar tipos, vozes e histórias sem pensar demais no nome disso.

Hoje vejo que muita coisa começou ali.

Antes dos livros, antes dos projetos e antes de personagens ganharem vida no papel, já existia em mim essa vontade de observar, inventar, representar e contar.

A escrita veio depois, mas a imaginação já estava trabalhando fazia tempo.

Helena Bernardes

Raízes da Minha Escrita

🐂 Hoje é Dia do Carreiro de Boi em Goiás

Para muita gente, é uma data no calendário. Para mim, é uma história que vem de longe. O carro de boi atravessa as memórias da minha família...