Um registro de 15 de setembro de 2026 - Dia Internacional da Democracia
Por Helena Bernardes
Um dia que merece ser registrado
Há dias em que uma data comemorativa parece apenas uma anotação no calendário.
Em outros, os acontecimentos dão à data um significado inesperadamente concreto.
Neste 15 de setembro de 2026, Dia Internacional da Democracia, o Brasil acompanhou
um cenário de forte divergência institucional em Brasília, manifestações políticas na
Esplanada e um esquema especial de segurança na Praça dos Três Poderes.
A coincidência não transforma automaticamente os acontecimentos em prova de que a
democracia brasileira esteja forte ou fraca. Mas oferece uma oportunidade rara para
observar aquilo que a democracia exige justamente quando surgem desacordos: regras,
transparência, liberdade de expressão, direito de manifestação, devido processo e
responsabilidade das instituições.
Democracia é mais do que votar
Na mensagem oficial de 2026 para o Dia Internacional da Democracia, as Nações
Unidas recordaram que democracia não se resume às eleições. Ela envolve direitos
humanos, Estado de Direito e participação significativa das pessoas na vida cívica e
política. A observação ganha peso num Brasil que está a poucas semanas das Eleições
Gerais de 2026.
O Tribunal Superior Eleitoral informou, em 14 de setembro, que faltavam vinte dias
para o primeiro turno e reforçou os canais oficiais pelos quais eleitoras e eleitores
podem consultar informações sobre candidaturas, partidos e prestação de contas. No
início do mês, o TSE também celebrou um Pacto Nacional pela Paz e Tolerância nas
Eleições 2026, voltado ao diálogo, à segurança, ao pluralismo e à realização de eleições
livres, seguras e legítimas.
Brasília e o Supremo no centro das atenções
Nesta terça-feira, o Supremo Tribunal Federal realizou sessão extraordinária
relacionada aos casos dos ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça no
contexto das apurações ligadas ao Banco Master e ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Entre as questões discutidas estava se os procedimentos deveriam ser analisados
separadamente ou de forma conjunta.
O placar provisório chegou a 4 votos a 3 pela análise separada. Antes de uma
conclusão, o ministro Flávio Dino pediu vista. Assim, o julgamento foi suspenso e não
houve, naquele momento, decisão definitiva sobre a questão principal envolvendo
eventual investigação de Alexandre de Moraes. É importante registrar essa distinção: o
placar parcial não foi uma decisão sobre culpa ou inocência.
As divergências expostas entre ministros também fazem parte do registro do dia.
Discordar sobre procedimentos, competência e interpretação jurídica não significa, por
si só, uma ruptura institucional. Em uma democracia, conflitos entre interpretações
podem ser resolvidos por procedimentos públicos, fundamentação jurídica e
mecanismos de revisão.
As ruas e a segurança
Enquanto o julgamento ocorria, uma manifestação de oposição foi realizada na
Esplanada. A imprensa registrou alterações temporárias no trânsito e
congestionamento no Eixo Monumental. O protesto principal foi encerrado ainda
durante o dia.
A Praça dos Três Poderes permaneceu sob esquema reforçado de segurança, com
grades, restrições de circulação e estacionamento e presença policial. No início da
tarde, o Correio Braziliense informou que não havia manifestação nas proximidades
imediatas do STF e que o trânsito havia voltado à normalidade naquele ponto. Até a
atualização utilizada neste artigo, não havia registro confiável de confronto
generalizado ou violência grave entre manifestantes e forças de segurança.
Quando ninguém concorda
Talvez seja fácil defender a democracia quando todos à nossa volta pensam da mesma
forma. O teste mais difícil começa quando pessoas, grupos e instituições discordam
profundamente.
Democracia não significa que todas as opiniões tenham o mesmo fundamento factual,
nem que toda acusação seja verdadeira apenas porque foi pronunciada em voz alta.
Também não significa que autoridades ou instituições estejam livres de
questionamentos. Significa que acusações precisam ser examinadas, decisões precisam
ser justificadas, direitos precisam ser preservados e divergências precisam encontrar
caminhos institucionais.
O direito de manifestação pertence à democracia. A liberdade de expressão pertence à
democracia. A independência das instituições também. E a possibilidade de fiscalizar,
questionar e exigir prestação de contas de quem exerce poder é igualmente parte dela.
O cidadão no meio do barulho
Existe ainda outro personagem nesta história: nós. Em períodos eleitorais, somos
bombardeados por discursos, vídeos, recortes, acusações, pesquisas, promessas e
versões concorrentes dos mesmos fatos. Nesse ambiente, cidadania não é apenas falar.
É aprender a verificar.
Antes de compartilhar uma informação, vale perguntar de onde ela veio. Antes de
transformar uma acusação em certeza, é preciso saber se houve investigação, prova e
decisão. Antes de julgar uma instituição inteira pela fala de uma única autoridade, é
necessário compreender como seus procedimentos funcionam.2
Nenhuma dessas atitudes exige que o cidadão abandone suas convicções. Ao contrário:
informação confiável permite que cada pessoa forme suas próprias conclusões com
mais autonomia.
Um 15 de setembro para guardar
Este Dia Internacional da Democracia encontrou o Brasil diante de instituições em
debate, cidadãos nas ruas e uma eleição nacional muito próxima. Não sabemos ainda
quais serão todos os desdobramentos dos processos discutidos hoje. Por isso, este texto
não pretende antecipar veredictos nem escolher vencedores.
Pretende apenas registrar um instante: um país discordando de si mesmo e, ao mesmo
tempo, obrigado a encontrar nas leis e nas instituições os caminhos para administrar
suas diferenças.
É justamente nos dias de maior divergência que a democracia revela o
quanto é necessária.
✍ Helena Bernardes
15 de setembro 2026

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