Antes de ser Vovó Onça, eu já rondava a vida de Helena sem que ela percebesse.
Durante a semana, a vida era outra.
Helena trabalhava vendendo pneus, percorrendo estradas, atendendo clientes e vivendo aquela correria que o trabalho exigia.
Mas chegava o fim de semana e o cenário mudava.
Ela ia para uma chácara em Anápolis, próxima às nascentes do Rio Piracanjuba.
Ali trocava o movimento das estradas pelo silêncio da mata.
De manhã cedo, pegava a câmera fotográfica e saía para caminhar.
Fotografava árvores, flores, orquídeas, animais, nascentes e tudo aquilo que encontrava pelo caminho. Muitas vezes, Shake, seu cachorro preto, seguia junto nessas pequenas expedições.
Os sobrinhos começaram a brincar com aquele jeito dela e a chamá-la de “mulher bicho do mato”.
E foi nesse tempo que apareceu outro apelido:
Tia Onça.
Eu estava começando a nascer.
Os anos passaram. A vida mudou. E então chegaram JPzinho e Leia.
Helena virou avó.
Ora, se a Tia Onça agora era avó, o destino do nome estava praticamente resolvido.
Nasceu a Vovó Onça.
Com os netos vieram as histórias. Depois chegaram outros personagens, florestas imaginárias, animais falantes, nascentes que precisavam ser protegidas e aventuras capazes de ensinar às crianças aquilo que Helena sempre acreditou: a natureza não é um lugar que visitamos. É a casa que precisamos aprender a cuidar.
Hoje eu apareço nos contos, nos livros e nas histórias que ela inventa.
Mas minha origem continua lá atrás:
entre uma semana de trabalho, uma estrada, um fim de semana na chácara, uma câmera fotográfica e uma mulher que gostava demais de entrar no mato.
Por isso, quando alguém pergunta quando a Vovó Onça apareceu, eu tenho vontade de responder:
— Eu não apareci de repente, não. Fui chegando devagarinho. Primeiro fui mulher bicho do mato. Depois Tia Onça. Até que dois pequenos chegaram e me promoveram a Vovó.
E promoção dessas a gente não recusa. 🐆
Vovó Onça.
Uma personagem nascida entre memórias, natureza e histórias contadas às crianças.
E o cabelo da Vovó?
Tem uma coisa que preciso contar.
Quando nasci como personagem, eu era uma onça-pintada idosa como manda a natureza: não tinha cabelo humano.
Usava meus óculos redondos, meu xale lilás e carregava minhas pintinhas com muita dignidade.
Só que personagem também vive fases.
Quando completei 68 anos, resolvi aprontar uma novidade: ganhei cabelos humanos, curtos e grisalhos, inspirados nos cabelos de Helena.
Foi uma espécie de aniversário com direito a mudança de visual.
Agora, quando apareço com meus fios grisalhos, não é erro de ilustrador, não. É evolução da personagem.
Afinal, depois de tantos anos contando histórias, achei justo ganhar alguns cabelos brancos também.
Afinal, quando nasceu a Vovó Onça?
Essa é a pergunta mais difícil.
Talvez eu tenha nascido quando Helena entrou pela primeira vez no mato levando uma câmera.
Talvez quando alguém a chamou de Tia Onça.
Talvez quando chegaram os netos.
Ou talvez eu sempre estivesse por ali, escondida entre uma nascente, uma fotografia, uma estrada e um caderno esperando a hora certa de aparecer.
Hoje sei a resposta que prefiro:
Eu não cheguei de repente à vida de Helena Bernardes. Eu já morava nela.
Só precisei de duas crianças para ganhar o nome de Vovó.
🐆 Vovó Onça
Personagem criada por Helena Bernardes, nascida das memórias, da natureza, da educação ambiental e das histórias contadas às crianças.
E assim nasceu a nova Vovó Onça: a mesma onça, as mesmas histórias, só que agora com cabelo para despentear. 🐆😄