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segunda-feira, 31 de agosto de 2026

🐆 A VOZ QUE HABITAVA HELENA BERNARDES

Quando até a Vovó Onça precisou emprestar o rugido

Tem gente que passa a vida inteira procurando a própria voz.

E tem gente que encontra uma onça de xale lilás no caminho.

Convenhamos: já é um começo bem mais interessante. 🐆

Numa noite em que até os grilos resolveram ficar quietos, a Vovó Onça chamou os netinhos para perto e avisou:

— Esta história não começa com “era uma vez”.

Pronto.

Nessa hora, até quem estava pensando em ir buscar café resolveu sentar.

Porque a história começava com um silêncio.

O silêncio de Helena Bernardes.

Dentro dela morava uma voz que queria sair, mas parecia não saber por onde.

Às vezes queria virar árvore.

Às vezes, rio.

Às vezes preferia ficar escondidinha, provavelmente esperando alguém aparecer com um manual de instruções.

Manual não apareceu.

Apareceu um rio quase sem água.

E rio, quando resolve fazer pergunta, não escolhe assunto fácil.

— Você também está sumindo?

Helena ficou quieta.

Mas a voz dentro dela se mexeu.

E respondeu:

— Estou procurando quem me ajude a falar.

Foi aí que a floresta inteira resolveu se meter no assunto.

Folha parou.

Bem-te-vi calou.

E até a onça-pintada mais antiga da mata levantou a cabeça.

Quem?

Ela mesma.

Vovó Onça.

Saiu de dentro daquela história, ajeitou os óculos, puxou o xale lilás e praticamente disse:

— Deixa comigo.

Mas fez uma ressalva importante:

— A voz continua sendo sua. Eu só estou emprestando o rugido.

E talvez seja justamente aí que mora a parte mais bonita dessa história.

A Vovó Onça nunca veio tomar o lugar de Helena.

Veio ajudar Helena a ocupar o lugar que já era dela.

Quando Helena escreve, é a Vovó quem aparece.

Quando a Vovó fala, é Helena quem sente.

Uma empresta o rugido.

A outra entrega a memória, o afeto, as histórias e aquele desejo insistente de lembrar às crianças:

cuidem da Terra.

No fim das contas, talvez encontrar a própria voz não seja aprender a falar mais alto.

Talvez seja simplesmente parar de fugir quando ela finalmente resolve aparecer.

E a Vovó Onça, que não perde oportunidade de dar sua opinião, já decidiu:

— Agora que encontramos essa voz, ninguém vai mandar ela ficar quieta, não.

A floresta que se prepare. 🐆🌿

E a próxima história?

Bem...

A Vovó deixou uma pista.

Parece que existe um rio querendo voltar a correr.

E quando rio e onça começam a conversar, é melhor a gente sentar perto.

A história provavelmente vai longe.

Helena Bernardes
31 de agosto de 2026