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quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Fui Procurar o Sol



Às vezes, a luz que procuramos não está no céu

Tem dias em que acordo e o sol está lá.

Entra pela janela, atravessa a varanda, bate nas plantas, ilumina a casa inteira.

E, mesmo assim, parece que falta claridade.

Talvez porque existam manhãs em que não é o céu que está nublado. É a gente.

Foi pensando nisso que me veio uma frase:

Fui procurar o sol.

Gostei dela antes mesmo de saber exatamente o que faria com ela.

Porque procurar o sol não significa necessariamente sair caminhando atrás de um amanhecer bonito.

Pode ser procurar uma conversa.

Abrir um caderno antigo.

Ouvir uma música.

Sentar perto de uma árvore.

Fotografar uma estrada.

Tomar café sem pressa.

Pode ser até desligar um pouco o barulho do mundo para descobrir se ainda conseguimos ouvir a nossa própria voz.

Passei boa parte da vida andando.

Andei por estradas de Goiás, conheci cidades, pessoas, histórias, matas, rios e nascentes. Muitas vezes carreguei uma câmera comigo. Talvez porque fotografar sempre tenha sido, para mim, uma maneira de dizer:

— Espere. Isso merece ser guardado.

Com o tempo descobri que fazemos a mesma coisa com algumas lembranças.

Guardamos luz.

Uma tarde com os filhos.

Uma risada dos netos.

Uma história contada por alguém que já não está aqui.

Um cheiro de terra molhada.

Uma árvore que encontramos novamente muitos anos depois.

Uma palavra escrita num caderno em 1998.

Pequenos sóis.

Talvez por isso, aos 68 anos, eu continue procurando.

Não porque tenha perdido a luz.

Mas porque aprendi que ela muda de lugar.

Houve um tempo em que meu sol estava nos filhos pequenos.

Depois esteve no trabalho, nas estradas, nos estudos, nas fotografias.

Hoje ele aparece também nos meus cadernos, nas histórias que escrevo, nos personagens que invento, numa música criada numa manhã qualquer e nas perguntas inesperadas de uma criança.

Outro dia, JPzinho me perguntou:

— Vovó, a gente planta água?

E fiquei pensando que talvez a vida inteira seja um pouco disso.

A gente planta aquilo que espera encontrar amanhã.

Planta árvores para que alguém encontre sombra.

Protege uma nascente para que alguém encontre água.

Conta histórias para que alguém encontre memória.

Escreve para que alguma palavra sobreviva à nossa passagem.

E espalha afeto na esperança de que, em algum momento, ele volte em forma de luz.

Foi assim que nasceu “Fui Procurar o Sol”.

Mas depois que a canção ficou pronta, percebi uma coisa que não estava nos meus planos.

Eu tinha saído procurando o sol lá adiante, no fim da estrada.

E ele estava espalhado pelo caminho inteiro.

Talvez seja sempre assim.

A gente passa tanto tempo olhando para o horizonte que quase não percebe as pequenas claridades que caminham ao nosso lado.

Hoje, se alguém me perguntar onde fica o sol que fui procurar, provavelmente vou responder:

Não sei.

Mas encontrei muitos pelo caminho.

E acho que ainda não terminei a procura.

✍️ Helena Bernardes
02 setembro 2026