quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Quando a inteligência artificial entra numa feira de livros

O que muda na literatura quando uma nova ferramenta se senta à mesa do escritor?

Durante muito tempo, escrever teve seus objetos quase sagrados.

Papel.
Lápis.
Caneta.

Depois veio a máquina de escrever, com aquele barulho que parecia anunciar cada frase ao mundo.

Vieram o computador, a internet, o celular.

E a literatura sobreviveu a todos eles.

Mais do que isso: apropriou-se deles
Agora chegou outra convidada.

A inteligência artificial.

E desta vez ela não ficou do lado de fora da porta.

A II Feira Literária de Goiás  FLIG 2026, realizada de 1º a 3 de setembro no Centro Cultural Martim Cererê, em Goiânia, colocou literatura, formação de leitores, literatura infantil, mundo digital e inteligência artificial dentro da mesma programação. A feira é promovida pelo Instituto Federal Goiano em parceria com instituições públicas de ensino e cultura. 

Achei isso especialmente simbólico.

Porque uma feira literária é justamente o território da palavra.

É onde escritores encontram leitores, livros encontram novas mãos e ideias antigas encontram novas interpretações.

E agora a inteligência artificial também entrou nessa conversa.

No dia 3, a programação traz a mesa “Literatura e mundo digital” e, em seguida, a palestra “Literatura e autoria em tempos de IA”, que pretende discutir desafios e possibilidades da inteligência artificial para a criação literária. 


Talvez a pergunta mais óbvia seja:

A inteligência artificial vai substituir o escritor?

Eu prefiro outra.

O que continuaremos chamando de autoria quando uma máquina puder nos ajudar a escrever?

Porque ferramenta e autor nunca foram a mesma coisa.

Uma caneta não escreveu um poema sozinha.

Uma máquina de escrever não inventou um personagem.

O corretor ortográfico não sentiu saudade.

O computador não teve infância.

E a inteligência artificial, por mais extraordinária que seja sua capacidade de trabalhar com palavras, também não viveu aquilo que o escritor viveu.

Ela não conhece o cheiro da casa onde crescemos.

Não teve uma mãe contando histórias.

Não guardou cadernos durante décadas.

Não viu uma nascente desaparecer.

Não sentiu vontade de transformar uma lembrança em personagem para que ela não morresse.

A experiência continua sendo humana.

Mas seria igualmente simplista fingir que nada mudou.

Mudou.

E muito.

Hoje um escritor pode conversar com uma ferramenta sobre estrutura, pesquisar caminhos, organizar ideias, revisar um texto, testar títulos e descobrir perguntas que talvez ainda não tivesse formulado.

Isso exige uma responsabilidade nova.

Não apenas saber escrever.

Mas saber o que pertence à nossa voz e o que estamos entregando à ferramenta.

Talvez o desafio dos escritores deste tempo não seja escolher entre o caderno e a inteligência artificial.

Talvez seja aprender a atravessar os dois mundos sem perder aquilo que nenhuma tecnologia deveria nos tomar:

a memória,

a imaginação,

a experiência,

a dúvida,

o espanto,

e aquela voz particular que faz alguém ler uma página e reconhecer:

“Isto foi escrito por essa pessoa.”

Por isso acho tão significativo ver uma feira literária colocando a questão sobre a mesa em vez de escondê-la.

Literatura sempre conversou com seu tempo.

Seria estranho se agora resolvesse fechar a janela.

A inteligência artificial entrou na feira do livro.

Que entre.

Que seja estudada.

Questionada.

Experimentada.

Criticada quando necessário.

Usada quando fizer sentido.

Mas que permaneça no lugar de ferramenta.

Porque, no fim, talvez a pergunta decisiva não seja se uma máquina consegue escrever.

A pergunta é outra:

Depois de tantas ferramentas novas, ainda teremos alguma coisa verdadeiramente nossa para contar?

Eu espero que sim.

Aliás, acredito que justamente por existirem tantas máquinas capazes de produzir palavras, ter alguma coisa verdadeira para dizer talvez se torne ainda mais precioso.

✍️ Helena Bernardes

Referência:

A programação oficial da FLIG confirma que a II Feira Literária de Goiás acontece de 1º a 3 de setembro de 2026, no Centro Cultural Martim Cererê, em Goiânia, com entrada gratuita. Amanhã, dia 3, estão previstas “Literatura e mundo digital”, das 15h30 às 16h30, e “Literatura e autoria em tempos de IA”, das 16h às 17h. 

E tem uma coincidência interessante: hoje à noite, na UFG, também haverá a roda “Escrita e Literatura em Tempos de IAs”, às 19h, dentro do Festival Flore-Ser. Ou seja, Goiânia está discutindo exatamente agora a relação entre escritores e IA em dois eventos diferentes. Isso, por si só, já daria outra crônica. 

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